OpiniãoO som da infância

O som da infância

Artigo de Marta Cerqueira Gonçalves, advogada e membro eleito da Assembleia Municipal de Braga Amar e Servir Braga.

© Marta Cerqueira Gonçalves

Hoje ouvi o som da infância.

Não vinha de nenhuma cerimónia oficial, nem de qualquer discurso preparado para assinalar o Dia Mundial da Criança. Vinha de um recreio. Do riso espontâneo de um grupo de crianças que brincava, indiferente às preocupações dos adultos, aos prazos, às notícias e às inquietações que tantas vezes nos ocupam os dias.

Durante alguns instantes, parei para escutar. Naquele riso havia liberdade. Havia confiança. Havia a certeza de que o mundo é um lugar para descobrir e não um problema para resolver. Talvez seja isso que a infância representa: a extraordinária capacidade de acreditar que tudo é possível.

À medida que crescemos, vamos perdendo um pouco dessa leveza. Aprendemos a desconfiar, a medir riscos, a antecipar dificuldades. As crianças fazem o contrário. Avançam. Experimentam. Caem e levantam-se. Sonham sem pedir autorização.

Por isso, o Dia da Criança não deveria ser apenas um dia dedicado às crianças. Deveria ser também um dia dedicado aos adultos. Um dia para nos interrogarmos sobre o que estamos a fazer com a infância que nos foi confiada.

Vivemos tempos de enormes avanços tecnológicos, de comunicação instantânea e de acesso quase ilimitado à informação. Mas continuamos a enfrentar desafios profundos. Há crianças que crescem rodeadas de afeto e oportunidades. Outras crescem marcadas pela pobreza, pela solidão, pela violência ou pela ausência de respostas adequadas às suas necessidades.

Nem todas começam a corrida da vida na mesma linha de partida. E essa é uma realidade que não pode deixar ninguém indiferente.

A proteção das crianças não é apenas uma obrigação legal ou institucional. É um imperativo moral. É uma responsabilidade coletiva que começa nas famílias, continua nas escolas, passa pelas autarquias, pelas associações, pelas empresas e chega a cada cidadão.

Nenhuma comunidade pode considerar-se verdadeiramente desenvolvida se existirem crianças cujos direitos permanecem por cumprir. Há sempre mais para fazer. Há sempre uma criança que precisa de ser ouvida, apoiada ou protegida.

O futuro de um concelho não se mede apenas pelas obras que constrói ou pelos investimentos que atrai. Mede-se, sobretudo, pela forma como cuida das suas crianças. Porque são elas que herdarão aquilo que hoje estamos a construir.

Quando o dia terminar e as celebrações chegarem ao fim, ficará uma pergunta essencial: que infância estamos a oferecer às crianças do nosso tempo? A resposta não se encontra nos discursos nem nas intenções. Encontra-se nas escolhas que fazemos todos os dias. E talvez seja por isso que, neste Dia Mundial da Criança, o som mais importante não seja o das palavras dos adultos.

Talvez seja, simplesmente, o som de uma criança a rir. Porque nesse riso vive a esperança de um futuro melhor. E cabe-nos a nós, adultos, garantir que essa esperança encontra espaço para crescer, proteção para florescer e oportunidades para se cumprir.

A forma como cuidamos das crianças de hoje será sempre a medida mais justa da sociedade que queremos ser amanhã. Enquanto o som da infância continuar a ecoar entre nós, haverá esperança. Mas haverá também uma responsabilidade que não podemos ignorar.

PARTILHE A NOTÍCIA

LEIA TAMBÉM

PUBLICIDADE

Últimas Notícias

POPULARES