
Nos últimos dias, o Presidente da Câmara Municipal de Braga veio a público anunciar que terá alcançado um acordo com o Governo para o financiamento das variantes do Cávado e do Este, num investimento global estimado em 80 milhões de euros. O anúncio foi acompanhado de outra declaração relevante: o projecto do BRT não avançará, “para já”.
À primeira vista, a notícia poderia ser interpretada como um sinal de eficácia política e de capacidade negocial. Contudo, uma análise mais atenta revela que estamos perante um verdadeiro exercício de ilusionismo político — daqueles em que o público é convidado a olhar para uma mão, enquanto a outra executa o truque.
Durante a campanha eleitoral, o actual Presidente da Câmara foi particularmente severo com quem ousou questionar o projecto do BRT. Chegou mesmo a classificar o seu adversário como “inconsequente” por ter recorrido a uma providência cautelar destinada a travar o processo. Na altura, o BRT era apresentado como inevitável, estruturante e absolutamente essencial para o futuro da mobilidade em Braga.
Hoje, curiosamente, o mesmo projecto é colocado em suspenso.
O que mudou, afinal?
O que parece ter mudado não foi a convicção política, nem a avaliação técnica do projecto. O que mudou foi o calendário. O BRT revelou-se, na verdade, impossível de concretizar dentro dos prazos exigidos pelo PRR. E quando um projecto não cabe no relógio europeu, deixa de ser prioridade — não por opção estratégica, mas por incapacidade de execução.
Perante esse impasse, tornou-se necessária a construção de uma narrativa alternativa. Uma verdadeira cortina de fumo: anuncia-se um vultuoso investimento rodoviário, apresenta-se um novo “acordo histórico” com o Governo e, no mesmo gesto, afasta-se o BRT do centro do debate público.
O ilusionista nunca admite que o truque falhou. Limita-se a apresentar outro número.
Assim, o abandono temporário do BRT é apresentado não como consequência de um erro de planeamento, mas como uma decisão ponderada, quase virtuosa. O problema nunca existiu — apenas mudou o palco.
Este episódio revela algo mais profundo: uma governação feita de anúncios, e não de coerência; de efeitos cénicos, e não de responsabilidade política. O que ontem era irresponsável criticar, hoje é perfeitamente aceitável suspender. O que ontem era indispensável, hoje pode esperar.
Braga merece mais do que jogos de percepções. Merece transparência, explicações claras e coragem política para assumir quando um projecto falha — em vez de o esconder atrás de comunicados e manchetes convenientes.
Porque governar não é fazer desaparecer problemas como num truque de magia. É enfrentá-los de frente, mesmo quando o aplauso não é garantido.
Nesta semana, ficou claro: o Presidente da Câmara não apresentou soluções — apresentou apenas mais um número do seu espectáculo político.
E o público começa, lentamente, a perceber como o truque funciona.


