
Quando um sistema político depende de um só homem, a sua institucionalização não é evolução. É o início do fim.
O Chega não é um partido no sentido clássico. É um projeto político centrado numa figura única onde não há liderança distribuída, nem sucessão preparada ou sequer uma segunda linha com peso próprio. André Ventura é o centro de tudo e o partido organiza-se à volta dele, dependendo da sua presença constante no confronto político.
Esta estrutura funciona na oposição porque vive do conflito diário, da polarização e da exposição mediática permanente. Mas transforma-se num problema no momento em que o líder é empurrado para um cargo que exige contenção, distância e silêncio estratégico.
A Presidência da República não é um espaço de combate partidário e um Presidente não governa, mas modera e representa. E sobretudo, afasta-se da luta política quotidiana. Tudo características ausentes no André Ventura.
Mas o dilema não se fica por aqui. Para Luís Montenegro, André Ventura é o maior pesadelo político, ganhe ou perca a Presidência.
Se Ventura vencer as presidenciais, teremos um Presidente que tentará, inevitavelmente, governar a partir de Belém, pressionando o Governo, esticando os limites constitucionais e mantendo um clima de confronto permanente. Em contrapartida, o Chega ficará neutralizado, órfão do seu líder no terreno político e o André Ventura passará a fazer parte do sistema. O tal que ele tanto critica.
Se, por outro lado Ventura perder, mas obtiver uma percentagem de votos superior àquela que Montenegro alcançou nas últimas legislativas, o cenário é igualmente explosivo. Ventura reivindicará para si a liderança da direita, reforçará o seu peso parlamentar e tornará extremamente difícil qualquer governação estável por parte do PSD, bem como qualquer diálogo construtivo com outras forças políticas, nomeadamente com a Iniciativa Liberal ou com o PS.
Na prática, o país enfrenta duas possibilidades igualmente problemáticas. Um Presidente que tenta governar a partir de Belém ou uma instabilidade prolongada na Assembleia da República, com eleições antecipadas no horizonte e com Ventura cada vez mais próximo de disputar o cargo de primeiro-ministro.
Mas a alternativa não é animadora. Podemos eleger um socialista para presidente e manter o país neste marasmo prolongado. Luís Montenegro agradece, mas o sistema mantém-se e nada muda.
O país encontra-se num beco quase sem saída. E um dos grandes responsáveis por este estado de coisas é a esquerda, a esquerda radical e em particular António Costa, que alimentou politicamente o Chega na expectativa de enfraquecer o PSD. A curto prazo a estratégia resultou. A médio prazo criou um problema estrutural ao País.
Para uma parte significativa da esquerda, quem vota em André Ventura é automaticamente rotulado como fascista, racista ou xenófobo. É acusado de não querer um Presidente de todos os portugueses e de serem antidemocráticos.
Mas esta narrativa encerra uma contradição profunda.
Ao afirmar isto, a esquerda está a dividir o país em duas categorias de portugueses: os bons que votam “corretamente” à esquerda e os maus que votam à direita. Uma divisão moral que contradiz exatamente o discurso que diz querer representar todos.
É neste ponto que a Iniciativa Liberal pode ter um papel decisivo. Atrair quem não se revê nem no PSD, nem no Chega. Pessoas que recusam tanto o radicalismo como o imobilismo. Oferecendo uma alternativa clara, responsável e moderna, sem nunca abdicar da sua matriz liberal.
Porque quando o sistema empurra o país para os extremos ou para a estagnação, a verdadeira rutura pode estar, paradoxalmente, na lucidez.


