OpiniãoO Dia em que a luz se apagou e a vida voltou...

O Dia em que a luz se apagou e a vida voltou a acontecer

Artigo de opinião de José Macedo.

© José Macedo

Na manhã de 28 de abril de 2025, Portugal mergulhou na escuridão. Um apagão nacional, que se prolongou por mais de 12 horas, deixou milhões sem eletricidade, sem internet e, por momentos, sem norte. O susto foi imediato. Como nos primeiros dias da pandemia de COVID-19, as pessoas correram em pânico aos supermercados. As prateleiras esvaziaram-se em minutos — água, enlatados, velas, pilhas… tudo desapareceu. O trauma recente da pandemia parece ter deixado uma cicatriz coletiva: hoje, espera-se sempre o pior.

No entanto, quando os telemóveis ficaram sem bateria e a rede deixou de responder, algo surpreendente começou a acontecer. Sem notificações, chamadas nem redes sociais, as pessoas olharam para cima, para os lados — para os outros. Tiraram os rádios a pilhas do fundo das gavetas, escutaram as notícias com atenção serena, e redescobriram a voz dos vizinhos. Em muitas cidades, os parques encheram-se de famílias. Pais e filhos, sem distrações digitais, reencontraram-se no baloiço, na corrida, na conversa.

Durante meio-dia, voltámos a saber viver.

Este apagão revelou mais do que a fragilidade da nossa infraestrutura elétrica. Mostrou a dependência quase doentia que temos dos bens digitais e da constante ligação à corrente — elétrica e virtual. A correria às compras revelou o medo, mas o silêncio sem ecrãs revelou a saudade de uma vida mais simples. A ausência de luz trouxe à tona outra luz: a das relações humanas, da presença, da escuta.

Quando a eletricidade regressou, com ela voltou também o ruído. Mas ficou o aviso: somos reféns de uma rede invisível que nos afasta, muitas vezes, daquilo que verdadeiramente importa. Talvez o apagão tenha sido um lembrete, um que não devíamos esquecer tão depressa.

Artigo de opinião de José Macedo.

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