
Todos os anos, a 8 de Março, celebra-se o Dia Internacional da Mulher. Multiplicam-se discursos institucionais, flores, fotografias nas redes sociais e declarações solenes sobre igualdade, respeito e justiça. As palavras são bonitas, as intenções parecem nobres, e por um dia o mundo recorda-se de que as mulheres são pilares fundamentais da sociedade.
Mas, terminado o ritual simbólico da celebração, permanece uma pergunta incómoda: – até que ponto a igualdade que se proclama existe verdadeiramente na vida concreta das mulheres?
Portugal orgulha-se, e com razão, de ter feito progressos significativos na promoção da igualdade de género. A legislação existe, as políticas públicas multiplicam-se, e o discurso institucional é quase sempre inequívoco: – homens e mulheres devem ter as mesmas oportunidades.
Contudo, a realidade social continua a revelar fissuras profundas entre a retórica e a prática.
Pensemos numa mulher comum, não numa abstração estatística, mas numa pessoa concreta. Uma mulher na casa dos quarenta anos, licenciada, Inteligente, trabalhadora, Mãe, durante alguns anos decidiu fazer aquilo que tantas vezes a própria sociedade exige às mulheres, cuidar dos filhos, acompanhar o crescimento da família, estar presente na educação e na construção emocional das crianças.
Quando decide regressar ao mercado de trabalho, acredita, legitimamente, que a sua formação, a sua experiência e a sua maturidade serão valorizadas.
Mas a realidade é outra.
Durante um ano e meio, envia currículos, concorre a vagas, participa em processos de seleção. A resposta repete-se, silêncio, recusas ou promessas vagas. A maternidade, que deveria ser um valor social, transforma-se silenciosamente num fator de suspeita profissional.
Num determinado momento surge um concurso público para uma câmara municipal. Finalmente, uma oportunidade transparente, baseada em mérito. A candidata estuda, prepara-se, realiza a prova de conhecimentos.
O resultado é inequívoco: mais de 17 valores, primeiro lugar, o mérito parece finalmente falar mais alto,
mas depois chega a entrevista, na entrevista esse território muitas vezes nebuloso onde os critérios se tornam subjetivos, a candidata é desqualificada. Não porque não saiba, não porque não seja competente, mas porque, algures entre impressões pessoais e decisões difíceis de escrutinar, o sistema decide que não é ela a escolhida.
E assim, mais uma vez, o mérito perde para aquilo que ninguém escreve nos regulamentos.
Este não é um caso isolado. É apenas o rosto humano de uma realidade que muitas mulheres conhecem demasiado bem, a dificuldade de regressar ao mercado de trabalho depois de exercerem aquilo que a sociedade considera uma das suas funções mais nobres, ser mãe.
Ironia das ironias, a mesma sociedade que exalta a maternidade penaliza frequentemente quem a vive.
Celebramos a mulher nos discursos, mas no quotidiano continuamos a impor-lhe escolhas impossíveis, ou carreira, ou maternidade, ou dedicação à família, ou competitividade profissional, ou presença no lar, ou relevância no mercado de trabalho.
A igualdade proclamada torna-se, assim, muitas vezes uma igualdade formal, mas não real.
E é aqui que o Dia da Mulher deveria incomodar mais do que confortar.
Porque celebrar as mulheres não é apenas oferecer flores ou publicar frases inspiradoras. Celebrar as mulheres implica garantir que o mérito é respeitado, que a maternidade não é penalizada e que o talento não é descartado por preconceitos silenciosos.
Portugal precisa de continuar a evoluir neste caminho. Não apenas com leis, mas com práticas. Não apenas com discursos, mas com decisões concretas.
É necessário que as instituições, públicas e privadas, olhem verdadeiramente para o valor que as mulheres trazem ao mundo profissional, maturidade, capacidade de gestão emocional, resiliência, visão prática e sentido de responsabilidade.
Qualidades que muitas vezes nascem precisamente da experiência de vida e da maternidade.
Neste Dia da Mulher, portanto, a homenagem mais justa não é apenas a celebração. É também a lucidez crítica.
Porque as mulheres portuguesas merecem mais do que palavras bonitas.
Merecem OPORTUNIDADEs REAIS, merecem JUSTIÇA.
E merecem que a sociedade finalmente compreenda que igualdade não é um slogan, é uma prática diária que ainda está longe de estar plenamente cumprida.


