OpiniãoKidZania política

KidZania política

Artigo de Hélder da Rocha Pereira.

© Hélder da Rocha Pereira

Votei Cotrim de Figueiredo e não me arrependo.

E até o candidato Vieira é mais sério e diz coisas mais acertadas do que certos candidatos.

Há momentos na política em que passa a valer tudo e em que a desonestidade intelectual deixa de ser uma exceção, para se transformar algo socialmente aceitável e quase celebrada. O episódio recente em torno de João Cotrim de Figueiredo é um desses momentos e diz mais sobre quem o explorou do que sobre quem o protagonizou.

Cotrim disse algo simples, quase banal num regime democrático adulto. Disse que não exclui votar em nenhum candidato. Nenhum. Isto chama-se coerência democrática. Chama-se assumir que o voto é um ato livre, pessoal e responsável, não um alinhamento automático imposto por cartilhas morais, por reflexos tribais ou por calculadoras de likes e indignação.

O problema não foi o que foi dito, mas o que foi feito com o que ele disse.

A comunicação social traduziu essa afirmação numa mentira conveniente. Não excluir nenhum candidato passou a significar votar em Ventura. Uma equivalência falsa, intelectualmente preguiçosa e extremamente útil para quem vive da polémica e do conflito. Uma frase clara foi torcida até caber num título. E o título fez o resto do trabalho.

Depois vieram os outros candidatos. Todos sem exceção vestiram a capa da virtude, assumiram um tom grave, apontaram o dedo e fingiram que não estavam surpreendidos. Sabiam ser falso e ainda assim aproveitaram. Tentaram ganhar votos com a distorção consciente de uma frase que nunca foi dita o que eles repetiram vezes sem conta. Isto não é debate político, mas oportunismo puro.

E é aqui que a coisa se torna quase caricata. No meio deste coro moralista, até o candidato Vieira mostrou mais seriedade. Disse menos disparates e coisas mais acertadas. Num palco onde quase todos competem pelo soundbite mais fácil e pela indignação mais performativa, isso já é dizer muito. A política “É cruel.” (Os Ena Pá 2000 anteciparam a descrição de alguns candidatos. É só ouvir a música.)

O que se passou faz lembrar um cenário estranho, mas familiar. Parecem adultos a brincar à política, como crianças que brincam às profissões dos adultos. Vestem o fato. Repetem as palavras certas. Imitam os gestos. Mas não compreendem a responsabilidade. Parece sério, cheira a sério, mas basta ouvir com atenção para perceber que é apenas imitação. Um grande exercício de KidZania política, onde todos fingem que mandam, que sabem fazer e que têm princípios inabaláveis.

Não precisamos de santos e certamente o Cotrim não precisa de advogados de defesa. O que precisamos é de adultos. De gente capaz de dizer que o voto não se decreta, que a democracia não funciona por exclusões morais fabricadas e que pensar não é crime. Precisamos de aceitar que discordar não é trair e que não alinhar no linchamento da semana não faz de ninguém cúmplice de nada.

Votei Cotrim de Figueiredo e não me arrependo. Não porque concorde com tudo, nem devo concordar, porque pensar implica crítica e autonomia. Votei porque, no meio deste ruído todo, foi o único que tentou recentrar a discussão destas presidenciais nos temas certos.
Os Estados Unidos parecem perdidos, mas tomam opções. A Europa está entregue a líderes que continuam a brincar às decisões sérias e do outro lado do mundo, a China continua a ganhar terreno.

Mas vivam os linchamentos mediáticos e os jogos hipócritas. Para Presidente, isso é manifestamente curto.

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