
Há momentos na História em que o ar muda. Essa mudança faz-se de forma progressiva e nunca de modo súbito. Primeiro instala‑se a desconfiança, depois a raiva e, por fim, a normalização do discurso do ódio. Quando damos por isso, o impensável já passou a ser apenas “polémico”. Foi assim nos anos 30 do século passado e é difícil não reconhecer ecos desse tempo no mundo em que hoje vivemos.
Em 1933, Adolf Hitler chegou ao poder pela via democrática. Não foi através de um golpe militar clássico, mas aproveitando as fragilidades de um regime que se debatia com hiperinflação, instabilidade política e humilhação imposta pelo Tratado de Versalhes. O nazismo não começou com campos de extermínio; começou com discursos inflamados, com a divisão entre “nós” e “eles”, com a ideia de que certos grupos eram responsáveis por todos os males da nação.
A História ensina‑nos que o autoritarismo raramente se apresenta como tal. Surge, quase sempre, em contextos caóticos, apresentando-se como salvador nacional.
Hoje, quase um século depois, o contexto é diferente, mas há aspectos da nossa realidade que são muito semelhantes.
Nos Estados Unidos, Donald Trump construiu a sua ascensão política explorando o ressentimento e a ideia de que os “nossos” têm de estar primeiro. Imigrantes transformados em inimigos, jornalistas tratados como adversários da nação, instituições democráticas apresentadas como obstáculos à vontade popular. A retórica não é acidental: ela cria um clima. E esse clima legitima excessos.
A instrumentalização da polícia de imigração (ICE) tornou‑se símbolo dessa lógica. Não se trata de comparar realidades históricas incomparáveis em termos de escala ou brutalidade, mas de reconhecer um padrão: quando forças do Estado passam a ser apresentadas como instrumentos de combate interno, quando a autoridade é mobilizada politicamente contra grupos específicos, não há dúvidas de que a Democracia está em perigo.
Em Portugal, apesar de vivermos numa Democracia consolidada e distante do contexto americano ou da Alemanha dos anos 30, seria ingénuo achar que estamos imunes aos movimentos nacionalistas internacionais.
André Ventura construiu o seu projecto político assente numa retórica de confronto permanente: contra minorias, contra instituições, contra o próprio regime democrático.
Ao longo do tempo, foram surgindo notícias, investigações jornalísticas e alertas públicos sobre a proximidade de elementos do partido a grupos extremistas – como o conhecido grupo “1143”, associado a discursos de ódio e violência. Como sabemos, recentemente, este grupo foi objecto de uma grande operação policial, tendo cinco dos trinta e sete detidos ficado em prisão preventiva, incluindo um dos líderes da organização. Os detidos adoptavam e difundiam a ideologia nazi, agindo por motivos racistas, com o objectivo de intimidar, perseguir e coagir imigrantes.
Independentemente das responsabilidades criminais, que cabem sempre à justiça apurar, o problema político é outro: o silêncio ou a ambiguidade perante o extremismo.
Foi exactamente assim que muitos regimes autoritários ganharam espaço. Não apenas pela força dos seus líderes, mas pela tolerância da sociedade ao radicalismo.
Hitler tinha as SS como braço ideológico e repressivo do regime. Trump promove uma visão securitária que transforma migrantes numa ameaça existencial. Ventura normaliza uma linguagem que legitima o ódio e banaliza o autoritarismo. As realidades não são iguais, mas a névoa é semelhante.
Em Janeiro de 1933, o presidente Hindenburg, aconselhado pelo seu círculo político, nomeou Hitler chanceler da Alemanha. Apesar de se temer a dinâmica revolucionária do movimento nacional-socialista, achava-se que se conseguiria controlar Hitler. Foi um erro, cujas consequências, infelizmente, são bem conhecidas de todos nós.
Há uma névoa de 1933 no ar.
E ignorar os sinais nunca foi, em nenhum momento da História, uma boa opção. O nosso regime democrático e a nossa liberdade estão em perigo!


