OpiniãoDormir bem não cabe numa aplicação

Dormir bem não cabe numa aplicação

Artigo de Álvaro Rocha, Professor Universitário & World’s Top 1% Scientist.

© Álvaro Rocha

Há uma ironia moderna que diz muito sobre o nosso tempo: até o sono, esse território íntimo, silencioso e aparentemente imune à produtividade, passou a ser medido, classificado e transformado em pontuação. Dormimos com relógios no pulso, anéis no dedo, telemóveis na mesa de cabeceira e aplicações prontas a dizer-nos, logo pela manhã, se a noite foi boa, medíocre ou um pequeno desastre fisiológico.

A promessa é sedutora. Num tempo em que quase tudo é quantificado, os rastreadores de sono oferecem a possibilidade de conhecermos melhor o nosso corpo. Dizem-nos quantas horas dormimos, quantas vezes acordámos, quanto tempo passámos em sono profundo ou em fase REM, e até atribuem uma nota global à nossa noite. Para quem vive cansado, dorme mal ou suspeita que não descansa o suficiente, estes dados parecem uma forma de recuperar controlo.

E, em parte, são-no. Os dispositivos atuais conseguem distinguir razoavelmente bem se estamos acordados ou a dormir. Podem ajudar a identificar padrões, maus hábitos e rotinas prejudiciais. Alguém que descobre, por exemplo, que dorme sistematicamente menos do que imaginava pode passar a deitar-se mais cedo. Alguém que percebe que o álcool, os ecrãs ou horários irregulares perturbam o descanso pode mudar comportamentos. Neste sentido, a tecnologia pode funcionar como espelho: não resolve o problema, mas obriga-nos a olhar para ele.

O problema começa quando o espelho se transforma em juiz.

Dormir não é uma competição, nem deveria ser mais uma área da vida sujeita à tirania da performance. Já contamos passos, calorias, batimentos cardíacos, minutos de exercício, produtividade diária, notificações respondidas e objetivos cumpridos. Faltava transformar também o sono num indicador de sucesso pessoal. Acordar bem deixou de bastar; é preciso que a aplicação confirme que dormimos bem.

Esta dependência da validação tecnológica é particularmente perigosa no sono porque, ao contrário de outras dimensões da saúde, pensar demasiado nele pode estragá-lo. Quem se deita preocupado com a pontuação da noite anterior, com a percentagem de sono profundo ou com a linha irregular do gráfico, dificilmente relaxa. A ansiedade de dormir bem torna-se, paradoxalmente, uma das causas de dormir pior.

É aqui que surge a chamada “ortosónia”, a obsessão com o sono perfeito medida por dispositivos digitais. A pessoa pode acordar descansada, mas ficar inquieta porque a aplicação lhe disse que a noite foi fraca. Ou pode acordar cansada, mas aceitar passivamente uma boa pontuação como se o algoritmo conhecesse melhor o seu corpo do que a sua própria experiência. Em ambos os casos, há uma transferência excessiva de autoridade: deixamos de escutar o corpo para obedecer ao painel de controlo.

Importa também lembrar que estes dispositivos não são instrumentos clínicos completos. São úteis para tendências gerais, mas menos fiáveis na identificação rigorosa das fases do sono. A polissonografia, feita em contexto médico, continua a ser o padrão de referência. Um relógio ou um anel inteligente pode sugerir pistas; não deve substituir diagnóstico, acompanhamento clínico ou bom senso.

O sono é uma necessidade biológica, mas também uma experiência humana. Depende de horários, alimentação, stress, trabalho, relações, preocupações, ambiente, idade e saúde. Reduzi-lo a um número é confortável, mas empobrecedor. A tecnologia gosta de nos convencer de que tudo o que é importante pode ser medido. A vida, felizmente, continua a contrariá-la.

Isto não significa rejeitar os rastreadores de sono. Significa usá-los com maturidade. Podem ser úteis para quem precisa de criar disciplina, perceber tendências ou corrigir rotinas. Mas devem ser instrumentos auxiliares, não oráculos domésticos. O dado deve servir a pessoa, não governá-la.

Talvez a melhor regra seja simples: se o rastreador ajuda a dormir melhor, vale a pena usá-lo. Se aumenta a ansiedade, a comparação ou a obsessão, é melhor tirá-lo. O sono precisa de regularidade, silêncio, confiança e abandono. Precisa menos de gráficos e mais de paz.

Num mundo que quer medir tudo, dormir bem pode tornar-se um pequeno ato de resistência. Não contra a tecnologia, mas contra a ideia de que só existe aquilo que um dispositivo consegue quantificar. Acordar repousado, com energia e clareza, continua a ser uma métrica extraordinária. E não precisa de bateria.

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