
Há algo profundamente fascinante, quase antropologicamente curioso, na forma como a humanidade conseguiu chegar ao século XXI, dominar a inteligência artificial, explorar Marte com sondas robotizadas e, simultaneamente, confiar o destino do planeta a líderes que parecem discutir território com a mesma maturidade de duas crianças a disputar uma pá de plástico na areia.
A diferença é apenas esta: – as crianças não possuem ogivas nucleares.
O ataque coordenado dos Estados Unidos e de Israel contra alvos iranianos, ontem, dia 28 de Fevereiro de 2026, deveria ter provocado um terramoto político mundial. Não apenas pela escala militar envolvida, mas pelo precedente que estabelece, uma potência decide que a ameaça futura justifica o ataque presente. E outra acompanha.
Chamaram-lhe segurança preventiva…
Outros chamar-lhe-ão aquilo que sempre foi, a normalização da guerra como ferramenta diplomática.
A resposta iraniana chegou como chegam todas as respostas previsíveis, mísseis, drones, promessas de vingança e populações civis novamente transformadas em figurantes involuntários de decisões tomadas por homens que raramente conhecem o cheiro do pó ou o som das sirenes.
Mas talvez o mais extraordinário não tenha sido o ataque , foi o mundo continuar.
Mercados abrem na segunda-feira, comentadores discutem probabilidades, redes sociais escolhem lados como quem escolhe equipas de futebol.
A guerra tornou-se episódio, o Donald Trump, mestre contemporâneo da política performativa, representa a ideia de que complexidade é sinal de fraqueza. A diplomacia paciente aborrece, o gesto espectacular mobiliza. A obsessão pela Gronelândia, tratada outrora quase como aquisição imobiliária estratégica, revelou mais do que ambição geopolítica, mostrou uma nostalgia curiosa por um mundo onde mapas podiam ser redesenhados pela vontade dos mais fortes.
Benjamin Netanyahu governa Israel como quem acredita viver permanentemente nos últimos cinco minutos antes do apocalipse. A ameaça existe, ninguém sensato o nega, mas quando o estado de emergência se torna condição permanente, a linha entre defesa e expansão começa a dissolver-se.
Do outro lado do tabuleiro, Vladimir Putin raramente precisa de pressa, observa o caos alheio com a paciência de quem sabe que a desordem é, por si só, uma estratégia.
Um Ocidente dividido é um adversário cansado, e um adversário cansado negocia mal.
Depois existe Kim Jong-un,
Talvez o mais honesto de todos, não disfarça, testa mísseis como quem bate à porta do mundo apenas para lembrar que está armado e aborrecido.
A comunidade internacional responde sempre da mesma forma, profunda preocupação. A Coreia do Norte, aparentemente, sobrevive há décadas alimentando-se desse sentimento.
E enquanto estes protagonistas disputam atenção estratégica, as Nações Unidas assistem ao espectáculo com a dignidade cansada de um árbitro sem apito. O Conselho de Segurança continua a provar diariamente que o direito internacional é extraordinariamente eficaz, desde que não incomode nenhuma potência com direito de veto.
A Europa observa, preocupada, sempre profundamente preocupada.
O continente que inventou a diplomacia moderna tornou-se especialista em declarações equilibradas. Entre dependências militares, fragilidade energética e receio económico, prefere muitas vezes a prudência ao confronto moral. O problema é que a prudência prolongada começa a parecer resignação.
E depois há o resto do mundo.
Países emergentes calculam contratos. Governos equilibram investimentos. Alguns aguardam benefícios comerciais da próxima crise energética.
A neutralidade tornou-se confortável, talvez demasiado confortável,
porque enquanto líderes testam limites estratégicos, quem paga não são eles, são os civis escondidos em abrigos, as famílias deslocadas, os jovens convocados para guerras que não começaram.
Existe uma ironia cruel em tudo isto, nunca tivemos tanta informação disponível e nunca estivemos tão anestesiados perante a violência. Assistimos a conflitos em alta definição enquanto jantamos, discutimos geopolítica entre anúncios publicitários, talvez seja esta a verdadeira vitória da guerra moderna, não precisa de vencer rapidamente, basta tornar-se normal.
E assim continuamos, o Trump negocia força, o
Putin administra tensão,
Netanyahu combate sobrevivências permanentes.
Kim Jong-un ameaça existir,
enquanto isto, o planeta aguarda que alguém, qualquer alguém, se lembre de actuar como “o adulto responsável”, porque brincar às guerras é sempre divertido, até ao momento em que alguém deixa cair o fósforo dentro do paiol.
E então já não haverá editoriais.
HAVERÁ APENAS SILÊNCIO…


