
“O ano é 2025 D.C.. Portugal é inteiramente ocupado por turistas que vêm conhecer o Pais e deixam ficar cá umas divisas na hotelaria, restauração, comércio, etc Bem, não inteiramente… Um concelho de indomáveis minhotos ainda resiste a esta invasão! E a vida não é fácil para os que lá moram…”
Esta descrição, adaptada livremente dos livros do Astérix, retrata bem a situação em Barcelos.
Um concelho com uma grande potencialidade para o turismo: tem cultura, espaços verdes, montes e vales com rios à espera de trilhos para passear, história, monumentos, etc, continua fechado nele próprio.
Convido o leitor a encarnar um turista que chegou a Portugal, por ex de avião que aterrou no Porto. Deseja visitar o Minho…
Tem comboios quase horários para Braga (a terra dos Arcebispos), Guimarães (onde nasceu Portugal), Viana do Castelo (capital do Alto Minho) e para a Terra do famoso, e internacionalmente conhecido, Galo – Barcelos- o comboio demora uma a uma hora e meia, normalmente linhas regionais, e com transbordo em Nine. Dada a qualidade da nossa ferrovia, e os constantes atrasos, perde-se logo a vontade…
E se mesmo assim o nosso turista resolveu arriscar, chega à Estação de Barcelos e fica perdido com a falta de indicações turísticas que o possam orientar nesta cidade, bem como de transportes que o possam levar aonde ele quer ir.
Assim o nosso turista resolve alugar uma viatura… o caminho mais rápido é através da A28 e depois pela A11 – uma das autoestradas mais caras do Pais.
Chegado a Barcelos, o nosso turista irá ficar admirado com as fantásticas ciclovias construídas no meio da faixa de rodagem, e com a existência diminuta de lugares para estacionamento. Então se for num dia de feira, em que as ruas da cidade ficam bloqueadas com estacionamentos em 2ª ou 3ª fila, o nosso turista pode pensar que se enganou e se encontra a conduzir numa qualquer competição de destreza automobilística…
Se ele for um amante de veículos elétricos ficará entusiasmado com a quantidade de carregadores disponíveis, e a forma como os barcelenses respeitam estes lugares. Se for num dia de feira vai constatar que 2 dos postos ficam assimilados pelos comerciantes e totalmente sem acesso…
Vamos pensar que o nosso turista, por uma das duas vias, conseguiu chegar a Barcelos e deseja conhecer o Concelho e a sua cultura. Onde estão as linhas TUBA (e devidas informações) que levem o nosso turista a todas as partes do Conselho? Às ruínas do Castelo de Faria, onde os Alcaides deram a vida pelo nosso Pais? Às freguesias onde os nossos artesãos continuam a criam Galos e outras peças de olaria – muitas dignas de museu – de forma manual? As freguesias com rios e zonas fluviais para um descanso no meio da natureza?Onde está uma descrição turística das ruínas ao lado da Igreja Matriz? Onde estão as informações históricas da cidade? Nem sequer indicações práticas do Posto de Turismo!
Chega a hora do almoço, e aí sim, Barcelos tem muito para dar. A oferta na área da restauração é fantástica. Existem restaurantes para todos os gostos, e para todos os tipos de bolsa! Esperemos é que não tenham uma intoxicação ou uma reação alérgica, pois o hospital pode não conseguir dar resposta, ou então, com o caos no transito, chegar o socorro atrasado…
Continuemos a nossa viagem, pensando que o nosso turista se encontra bem…
O nosso leitor, perdão, turista, já chegou a Barcelos, já almoçou, e como não tem como sair da cidade, vai conhecer os monumentos e os museus. Vista a Misericórdia, o Terço, o Senhor da Cruz, vai ao Museu da Olaria e termina na Igreja Matriz. Percorre a Rua Direita à procura de um “recuerdo” que lhe lembre a Cidade mas, mais uma vez falta uma loja, com as peças dos artesãos. A oferta é a mesma que ele encontrará numa loja no Porto, ou até na Zona Franca do Aeroporto.
Mesmo assim o turista gosta da cidade e quer ficar em Barcelos uma noite!
Aí as coisas complicam-se! A oferta hoteleira é diminuta… É de tal forma diminuta que mesmo quando uma equipa qualquer vem jogar a Barcelos fica hospedada em Braga…
Assim o nosso turista regressa ao Porto, com mais 1h30 de comboio, ou então num “pára-arranca” que mete medo para sair da Cidade. Mais uma vez fruto de uma ineficiente rede de transportes públicos que leva todos os munícipes a usarem o transporte privado.
E no final do dia, os barcelenses, ao verem este turista a ir embora perguntam: “Já vai?” ou então comentam “Veio cá e não gastou nada. Vai levar o dinheiro para outro lado!”. Alguns políticos dirão: “Não conseguimos fazer mais pelo Município pois não conseguimos reter capital como outras cidades fazem.”….
Pois bem… Penso que o leitor já compreendeu o dilema. Obviamente que nem tudo é responsabilidade do poder local mas se não se expuser as situações e não se criarem condições, Barcelos continuará a ser uma “cidadezinha” por onde passam os Caminhos de Santiago e onde alguns peregrinos deixarão algumas moedas num café ou numa refeição.
A cidade continuará a viver para si, irredutívelmente, fechada (como o Astérix). E como no Astérix, em que o chefe só tinha medo que o céu lhe caísse em cima, talvez o executivo camarário só tenha medo de perder as eleições seguintes.
Esta é a hora de mudar o paradigma da cidade. Abrir a cidade ao turismo, à iniciativa privada e público-privada. Criar as condições para que o Pais mude a sua visão em relação a Barcelos. Criar condições para tornar Barcelos uma cidade turisticamente atraente, não só para o peregrino ou o turista individual, mas também para as operadoras turísticas.
Está na hora de Barcelos ter iniciativa…..
Artigo de Nuno Calçada Loureiro, 48 anos, professor do Ensino Superior e candidato à Assembleia Municipal de Barcelos pela Iniciativa Liberal.


