OpiniãoAmor Unilateral

Amor Unilateral

Artigo de opinião de Sara Silva.

© Sara Silva

Para muitos, o fim de semana cheira a descanso, a passeios em família, a cafés demorados e conversas leves. Para nós, pais de nadadores, o cenário é outro. O descanso fica à porta da piscina. Passámos o sábado e o domingo fechados num pavilhão, olhos colados à água, a vibrar com cada braçada, a gritar por filhos que carregam ao peito, com orgulho, o símbolo do Sporting Clube de Braga.

Durante dois dias, deram tudo. Corpo exausto, músculos tensos, olhos a brilhar. Não por vaidade. Nem por medalhas. Foi por paixão. Por amor ao clube, à equipa, à natação. Uma entrega que poucos veem. E menos ainda reconhecem.

Mas o verdadeiro esforço não se vê na superfície. Está nos bastidores. Nos treinos que acontecem todos os dias, sim, todos os dias, mesmo quando chove, mesmo quando há testes na escola, mesmo quando tudo grita por descanso. Está nas rotinas duras, nas refeições ajustadas ao cronómetro, nos dias em que só há tempo para nadar, comer e dormir. Nas manhãs longas e nas noites em que saem da piscina quando a cidade já adormeceu. Nos fins de semana sacrificados. Nos feriados passados entre sacos de desporto, provas e esperas intermináveis. Enquanto outros desportos brilham sob holofotes, a natação acontece em silêncio. Um silêncio molhado, exigente, invisível. Um silêncio que forma caráter, coragem, resiliência. Cada quilómetro nadado, sim quilómetro, é uma luta contra o cansaço, contra o frio, contra o tempo e, muitas vezes, contra a falta de apoio. E mesmo assim, eles continuam. Não porque têm de o fazer, mas porque querem. Porque acreditam. Porque encontraram ali mais do que um desporto. Encontraram uma família. Uma identidade. Um propósito.

E é aqui que tudo começa a doer. Este amor é unilateral. Os nossos filhos representam o clube com lealdade e orgulho. E o clube… está onde?

Estamos a fechar mais uma época. Outra vez sustentada por pais que transportam, que pagam, que alimentam, que garantem tudo o que falta. Por treinadores que fazem muito com quase nada. Que orientam, motivam, escutam, acolhem. Famílias inteiras organizam a vida à volta da piscina. Os fins de semana não são de descanso. São de compromisso. Tudo isto acontece sem que se peça nada em troca. A não ser uma coisa: respeito.

Mas há limites.

No arranque da nova época, fomos surpreendidos com um aumento inesperado de custos. Equipamento, taxa de renovação, encargos adicionais. Para uma família com dois filhos, ultrapassa 30% de aumentos. Um valor que pesa. Principalmente quando nada muda: continuamos com água fria no inverno porque a caldeira não funciona. Continuamos sem transporte garantido para as provas. Continuamos a preparar lanches em casa porque não há apoio.

E a sensação é sempre a mesma: a natação é tratada como um parente pobre. Um extra. Uma modalidade menor, lembrada apenas quando há títulos. Quando se sobe ao pódio. Quando se partilham fotografias bonitas nas redes. Mas esquecem-se do resto. Dos treinos duros. Dos sacrifícios silenciosos. Do esforço invisível. Da dor calada. Do orgulho que carregam mesmo quando ninguém os vê.

Fala-se tanto de mérito, de esforço, de formação. Então olhem para estes jovens atletas. Olhem bem. Eles dão o exemplo. São alunos empenhados, amigos leais, jovens disciplinados. Sabem o que é compromisso, superação, humildade. E ainda assim, continuam invisíveis. Como se o trabalho deles valesse menos só porque acontece longe das câmaras e das grandes multidões.

O clube pode ignorar. Nós não.

Porque a natação também dá retorno. Também forma campeões. Também preenche páginas de jornais e dignifica o nome do clube. Uma das únicas modalidades lucrativas no clube além do futebol, senão a única. E mesmo assim, continuamos a ter de pedir, a justificar, a lutar pelo mínimo, como se estivéssemos sempre de fora. Como se fôssemos hóspedes indesejados numa casa que também ajudamos a construir.

Queremos respostas. Os nossos filhos vão continuar a treinar em água gelada? Vão ter transporte para as provas? Um lanche, pelo menos, depois de horas a dar tudo? Vão ser ouvidos, acompanhados, valorizados?

Não pedimos luxos. Nunca pedimos. Pedimos respeito. Condições mínimas. Presença. Compromisso. Uma estrutura que cuide de quem se entrega de corpo e alma.

Se o clube se orgulha das medalhas, que esteja presente também nos dias sem pódio. Nos treinos solitários. Nas manhãs em que ninguém vê. Nos bastidores, onde o verdadeiro desporto vive e onde os verdadeiros campeões se constroem.

A resiliência que eles aprenderam na piscina também vive em nós. E se for preciso, deixaremos de carregar ao peito o símbolo que tanto amamos. Não por fraqueza. Mas por força. Porque o amor, quando é só de um lado, deixa de ser amor. Torna-se abandono.

Não queremos promessas. Queremos ação. Queremos presença. Queremos justiça desportiva.

Porque o amor, para ser amor, nunca pode ser unilateral.

Artigo de opinião de Sara Silva, professora e empresária.

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