OpiniãoAmor falso: a nova indústria do crime digital

Amor falso: a nova indústria do crime digital

Artigo de Álvaro Rocha, Professor Universitário & World’s Top 1% Scientist.

© Álvaro Rocha

As fraudes românticas online continuam a ser vistas, demasiadas vezes, como histórias de ingenuidade. Alguém conhece uma pessoa na internet, acredita numa relação improvável, envia dinheiro, perde as poupanças e acaba envergonhado. De fora, é fácil julgar. Mas essa leitura é simplista, injusta e perigosa.

Estas burlas dizem menos sobre falta de inteligência individual do que sobre duas fragilidades do nosso tempo: a solidão crescente nas sociedades ocidentais e a pobreza persistente em regiões onde muitos jovens não encontram futuro. Entre uma e outra, a internet tornou-se o palco ideal para transformar carência afetiva e desespero económico num negócio criminoso global.

Portugal não está à margem deste fenómeno. Num país envelhecido, onde muitas pessoas vivem sozinhas ou afastadas dos familiares, existe um terreno favorável à exploração emocional. Também no Minho, região marcada pela emigração, pelo envelhecimento demográfico e pela dispersão das famílias, há homens e mulheres que enfrentam longos períodos de isolamento.

Em muitas localidades minhotas, os filhos e netos partiram para o Porto, Lisboa, França, Suíça ou Luxemburgo. Ficaram pais e avós, por vezes viúvos, reformados ou com redes sociais cada vez mais reduzidas. É neste vazio que um desconhecido atento pode começar a parecer indispensável.

Os chamados love scams não vivem apenas de tecnologia. Vivem de atenção. O burlão não vende só uma mentira; vende presença, escuta, cuidado e promessa de companhia. Envia mensagens diárias, pergunta pela saúde, elogia, consola, acompanha rotinas e cria intimidade. Muitas vítimas não caem por desconhecerem os riscos da internet. Caem porque recebem algo que lhes falta na vida real: alguém que parece estar sempre disponível.

O dinheiro raramente é pedido no início. Primeiro constrói-se uma ligação emocional. Só depois surgem as histórias de emergências, viagens bloqueadas, hospitais, heranças, militares em missão ou negócios urgentes. A vítima não sente que está a transferir dinheiro para um desconhecido; sente que está a salvar uma relação e a proteger a possibilidade de ainda ser amada.

Depois vem a vergonha, que constitui uma segunda violência. Muitas vítimas perdem dinheiro e também a coragem de contar o que aconteceu. Temem ser ridicularizadas pelos filhos, amigos, bancos ou autoridades. Numa pequena comunidade do Minho, o receio de exposição pode ser ainda maior. O silêncio favorece os criminosos: quanto menos se denuncia, mais fácil se torna repetir o esquema.

A tecnologia acelerou este fenómeno. Redes sociais, aplicações de encontros, fotografias roubadas, identidades falsas, tradutores automáticos, inteligência artificial e pagamentos digitais criaram um ecossistema perfeito para a fraude afetiva. Hoje, um criminoso pode simular um rosto, uma voz, uma profissão, uma família e um futuro partilhado.

Com inteligência artificial, poderá até conversar em português europeu, usar expressões regionais e adaptar o discurso à realidade de alguém de Braga, Guimarães, Barcelos ou Viana do Castelo. A fraude tornar-se-á mais convincente, escalável e difícil de detetar.

A resposta não pode ser apenas policial. Portugal precisa de plataformas mais responsabilizadas, bancos atentos a transferências suspeitas, cooperação internacional e campanhas de literacia digital dirigidas também a adultos e idosos. No Minho, autarquias, juntas de freguesia, universidades seniores, associações e instituições sociais podem desempenhar um papel decisivo no combate ao isolamento e na prevenção destas burlas.

A segurança digital não é apenas uma questão de palavras-passe, antivírus ou autenticação em dois fatores. É também uma questão de emoções, autoestima, confiança e comunidade. A melhor defesa contra quem vende amor falso talvez seja uma sociedade onde menos pessoas estejam desesperadas por acreditar nele.

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