OpiniãoQuando a autoridade é agredida e o silêncio social quase não se...

Quando a autoridade é agredida e o silêncio social quase não se incomoda…

Artigo de Paulo Veiga.

© Paulo Veiga

O caso de Beja, noticiado a 31 de Maio de 2026, não pode ser lido como um simples episódio de desacatos. Um agente da PSP, de 26 anos, terá sido agredido a murro e pontapé por um grupo de cerca de quinze homens depois de chamar a atenção para crianças que atiravam garrafas de plástico aos carros que passavam. Um suspeito foi detido e outros dois identificados.

Mas o verdadeiro problema não está apenas em Beja. Está no país inteiro.

Segundo dados noticiados com base no Relatório Anual de Segurança Interna de 2025, a PSP e a GNR foram alvo de 2.189 crimes nesse ano, o que equivale a cerca de seis crimes por dia contra elementos das forças de segurança. Na PSP, 944 agentes sofreram agressões, na GNR, foram registados 1.245 crimes contra militares, acima dos 1.162 de 2024.

Estes números deviam abrir telejornais, provocar debates parlamentares sérios, obrigar partidos, comentadores, juristas, pedagogos, sociólogos e responsáveis políticos a fazer uma pergunta simples: – o que está a acontecer ao respeito pela autoridade em Portugal?

Mas não, a agressão ao polícia tornou-se quase ruído estatístico, mais uma ocorrência, uma notícia curta, uma nota de rodapé na avalanche informativa.

Agora imaginemos o contrário.

Imaginemos que quinze polícias agrediam um cidadão no chão, a murro e pontapé, depois de este ter apenas chamado a atenção para um comportamento errado. O país parava!! Haveria especiais televisivos, indignação permanente, comunicados partidários, protestos, exigência de demissões, editoriais inflamados e debates sucessivos sobre violência policial, abuso de poder e autoritarismo.

E bem.

Porque qualquer abuso policial deve ser investigado, condenado e punido sem hesitação. O caso da Esquadra do Rato, em Lisboa, envolvendo alegações gravíssimas contra agentes da PSP, teve e deve ter mediatismo, escrutínio e consequência judicial. Foram noticiadas detenções de agentes por suspeitas de crimes como tortura, violação, abuso de poder e ofensas graves à integridade física.

Mas é precisamente aqui que nasce a pergunta incómoda: – porque é que a violência cometida por agentes contra cidadãos merece legítima comoção nacional, mas a violência cometida contra agentes parece merecer apenas resignação?

Há uma assimetria moral perigosa.

Quando a autoridade falha, o país indigna-se, quando a autoridade é agredida, o país encolhe os ombros.

Esta desigualdade no olhar público mina a confiança das forças de segurança e alimenta uma sensação de abandono. O polícia passa a sentir que está sozinho, cobrado quando age, acusado quando erra, filmado quando intervém, insultado quando impõe ordem e esquecido quando é ferido.

Não se defende uma democracia atacando cegamente a polícia.

Mas também não se defende uma democracia protegendo cegamente a polícia.

O equilíbrio está em exigir uma polícia exemplar e, ao mesmo tempo, proteger exemplarmente os polícias quando cumprem a lei.

Portugal parece ter perdido esta noção elementar.

O respeito pela autoridade não desapareceu de um dia para o outro, foi sendo corroído lentamente. Primeiro em casa, quando muitos pais deixaram de educar para os limites, depois na escola, quando muitos professores passaram a ser tratados como empregados dos alunos e dos encarregados de educação, depois na rua, quando qualquer chamada de atenção passou a ser vista como provocação e finalmente, chegou-se ao ponto em que um agente da PSP pode ser agredido por fazer aquilo que a sociedade lhe exige, intervir.

A criança que atira objectos aos carros não está apenas a brincar, está a colocar vidas em risco.

O adulto que agride o polícia não está apenas a defender uma criança, está a ensinar-lhe que a força substitui a razão.

E o Estado que não reage com firmeza não está a ser tolerante, está a ser cúmplice da erosão da sua própria autoridade.

A questão de fundo é civilizacional, uma sociedade livre precisa de autoridade legítima, sem autoridade, não há liberdade, há arbitrariedade, não há segurança, há intimidação, não há direitos, há imposição do mais forte.

Durante anos, confundiu-se autoridade com autoritarismo e essa confusão foi devastadora. Autoritarismo é abuso, medo e opressão, autoridade democrática é lei, ordem e protecção. O polícia que impede uma agressão, o professor que corrige uma indisciplina, o juiz que aplica uma pena e o pai que impõe limites não são inimigos da liberdade, são, muitas vezes, a sua última defesa.

Portugal precisa de ter coragem para dizer isto sem complexos, agredir um agente da autoridade não pode ser tratado como um incidente menor.

Não porque o polícia valha mais do que outro cidadão, mas porque, naquele momento, ele representa a lei que protege todos os cidadãos.

Quando se agride um agente no exercício das suas funções, agride-se a pessoa, a farda, a instituição e o próprio princípio de que a convivência colectiva depende de regras.

Também é necessário perguntar que papel tem a comunicação social nesta construção. O jornalismo deve denunciar abusos policiais, sem dúvida. Deve fiscalizar o poder, expor excessos, dar voz às vítimas e impedir que a farda se transforme em escudo de impunidade. Mas o jornalismo também deve mostrar, com a mesma seriedade, a violência crescente contra quem garante a segurança pública, porque a escolha editorial também educa a sociedade.

Quando se dá grande destaque ao erro da autoridade e pequeno destaque à agressão contra a autoridade, transmite-se uma mensagem subtil, a autoridade só merece atenção quando falha, não quando é atacada.

Esta lógica é injusta, perigosa e profundamente desmoralizadora.

O resultado está à vista, polícias mais hesitantes, professores mais retraídos, pais mais permissivos, jovens mais desafiadores e cidadãos cumpridores cada vez mais cansados de viver num país onde quem respeita a lei parece muitas vezes mais sozinho do que quem a viola.

Portugal não precisa de uma polícia temida, precisa de uma polícia respeitada, não precisa de autoridade brutal, precisa de autoridade firme, não precisa de impunidade policial, precisa de protecção para os polícias que cumprem a sua missão.

Se um agente abusa, deve responder, se um cidadão agride um agente, também deve responder, sem desculpas, sem relativizações, sem medo de chamar as coisas pelo nome.

O caso de Beja não é apenas sobre quinze homens e um polícia, é sobre crianças que aprendem pelo exemplo errado, adultos que já não aceitam limites, um Estado que hesita, uma sociedade que se comove selectivamente, uma democracia que exige autoridade, mas tem vergonha de a defender.

Uma democracia que tem vergonha da sua autoridade legítima acaba, mais cedo ou mais tarde, por ficar refém da autoridade ilegítima da rua.

A pergunta não é apenas, que se passa com o respeito pela autoridade neste país?

A pergunta mais dura é esta, durante quanto tempo ainda fingiremos que isto é normal?

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