OpiniãoAGERE: Quando o lucro não chega à rua

AGERE: Quando o lucro não chega à rua

Artigo de José Macedo.

© José Macedo

A AGERE é frequentemente apresentada como um exemplo de boa gestão no universo das empresas municipais de Braga. E os números parecem confirmar essa narrativa: a empresa que gere a água, o saneamento e os resíduos urbanos tem vindo a apresentar resultados financeiros positivos, com lucros relevantes em 2024 e novamente em 2025. Mas é precisamente aqui que se impõe uma reflexão política séria e necessária: como é possível manter resultados financeiros tão expressivos quando a cidade revela, no dia a dia, sinais evidentes de insuficiência na recolha de lixo e na higiene urbana?

Basta circular por várias zonas da cidade para constatar uma realidade que muitos bracarenses reconhecem, nomeadamente, contentores cheios ou sujos, lixo depositado no exterior durante dias, ausência visível de lavagem dos equipamentos e uma sensação generalizada de falta de limpeza.

Braga surge limpa, organizada e cuidada sobretudo em momentos de grandes eventos, festividades ou datas marcantes. No quotidiano, a perceção é outra… e a rua não mente. Este debate ganha ainda maior relevância quando se recorda que a AGERE é uma empresa de capital misto, em que 49% do capital é privado.

Este modelo pode ser legítimo e funcional, mas exige um nível acrescido de exigência, transparência e escrutínio público. Porque quando se trata de serviços essenciais, o objetivo principal não pode ser o lucro, mas sim a qualidade do serviço prestado à comunidade. Não se trata de ignorar a falta de civismo de alguns cidadãos, que colocam resíduos fora dos contentores. Essa realidade existe e deve ser combatida com pedagogia e fiscalização. Mas o civismo não pode servir de álibi para um serviço que não responde com eficácia, regularidade e proximidade. Uma cidade limpa exige responsabilidade partilham, dos cidadãos, sim, mas também de quem gere o sistema.

Quando uma empresa municipal apresenta lucros consistentes, isso deveria traduzir-se em mais investimento operacional, mais recolhas, maior frequência de lavagem de contentores, melhor cobertura territorial, respostas mais rápidas às ocorrências e maior visibilidade do serviço no terreno. Se isso não acontece, então é legítimo perguntar: onde está a tradução prática desses resultados financeiros?

Braga não pode ser uma cidade limpa apenas por ocasião. Não pode depender do calendário das festas ou da agenda mediática. A limpeza urbana tem de ser diária, regular e sentida em todas as freguesias, do centro às zonas mais periféricas. O verdadeiro sucesso de uma empresa municipal não se mede apenas pelos relatórios e contas. Mede-se na qualidade de vida das pessoas, no espaço público cuidado e na confiança dos cidadãos. E é essa confiança que hoje precisa de ser recuperada.

Porque lucro sem impacto positivo na rua não é virtude, é um sinal de alerta político!

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