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A Urgência do Planear

© Filipe Silva

Vivemos numa sociedade em que o ideal choca com o racional. Sim, ouvimos muitas ideias, muitas promessas, que pelos ouvidos nos entram e que chocam ao primeiro pensamento racional se a isso nos propusemos: “será viável essa ideia?”

Num universo infantil, muitas ideias são fantásticas, todos teríamos um ordenado mínimo como os países nórdicos, todos poderíamos ter um ensino ou sistema de saúde fantástico, meios de transportes não poluentes, quer ao nível de produção quer ao nível de utilização.

Como eu costumo dizer aos miúdos, “essas ideias seriam fantásticas se o dinheiro crescesse nas árvores…”

Quando se fala em melhorias da mobilidade urbana, a resposta mais frequente é que as soluções requerem enormes verbas e que nossas cidades têm uma arquitetura que impede soluções estruturais mais radicais…

Não há qualquer possibilidade em rebater esses argumentos, pelo que urge planear de forma coerente o que se pode ou não fazer.

Na maioria das cidades, tem havido preocupação em criar ciclovias para lazer. Fantástico. Algumas destas são um verdadeiro deleite para nossa saúde física e mental. Mas, há alguma preocupação em que estas possam ser utilizadas também nas deslocações do dia-a-dia de forma a diminuir o trânsito nas nossas cidades? Quantas destas ciclovias foram criadas tendo em conta a sua ligação a escolas ou zonas com grande afluência populacional? Ainda no passado ouvi uma amiga da minha filha dizer que não tinha uma bicicleta pois não tinha onde andar perto de sua casa… estamos à espera que num país com os nossos ordenados, as pessoas estejam dispostas gastar o custo de aquisição de bicicletas mais o custo de suportes de bicicletas para a viatura? Isto para não falar no contra-senso de ter de obrigar as pessoas a recorrer ao uso do carro para poder usar bicicleta num lugar distante…

Vejo muita gente revoltada pelo absoluto descontrole das trotinetes de aluguer, pois muitos dos seus utilizadores andam muito depressa ou de forma abusiva e abandonam-nas em qualquer lado. Porque sucede este problema? Quem é proprietário de trotinetes ou de bicicletas não as pode utilizar no dia-a-dia como transporte, pois não há locais seguros onde possam deixá-las sossegadas sem receio a que sejam furtadas… Assim, quem gastou dinheiro e cuida dos seus bens, não os usa; quem os aluga, faz imensas asneiras, pois não lhe custa… Quando questionei ao meu filho se podia ir de bicicleta / trotinete para a escola e se tinha onde a guardar, a sua resposta foi imediata: “sim, mas arrisco-me a que a roubem num ápice, pois tem de ficar cá fora…”

Temos visto ”medidas” de fomento à mobilidade sem qualquer cabimento, como lugares de estacionamento sem apoios de bicicleta, ciclovias interrompidas por estradas sem passadeiras para atravessar, ciclovias que de repente acabam em frente a vias rápidas sem continuação, vias “cicláveis” que não passam de meras pinturas em estradas em que se circula a altas velocidades etc… De que servem programas de ensino de regras de circulação rodoviárias a crianças quando nunca andarão pela cidade, pois estas não são seguras?

Não podemos ser utópicos e desejar que se implementem alterações estruturais, pois não há verbas; não podemos pedir que se removam faixas de estrada ou que em vias rápidas se circule a 30km/h para que as bicicletas e trotinetes lá circulem, pois iria tornar impraticável o trânsito.

Podemos sim, exigir medidas simples, coerentes e bem planeadas. Seguem alguns exemplos de medidas sem causar muitos danos orçamentais/estruturais: ligar escolas às ciclovias existentes, dividindo com “mecos” parte dos passeios e passadeiras; alterar lugares de estacionamento verticais para laterais, de forma a ter novas faixas de circulação sem afetar as estradas existentes; criar lugares seguros de estacionamento nos lugares de maior afluência como escolas. Estas medidas já foram implementadas sem grandes custos nem grandes alterações estruturais, simplesmente têm de ser pensadas com coerência de acordo com as realidades de cada cidade de modo a tornar a circulação alternativa uma atividade do dia a dia e não um mero objeto de lazer aos fins de semana. É urgente planear para incentivar.

Artigo de opinião de Filipe Silva, informático.

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