
Num mundo cada vez mais interligado, celebrar o Dia Mundial da Língua Portuguesa não é apenas um gesto simbólico — é um convite à reflexão sobre o papel profundo que a língua desempenha na construção das identidades, na transmissão do conhecimento e na participação cívica. Mais do que um instrumento de comunicação, a língua afirma-se como um organismo vivo, herdeiro de uma longa tradição, mas também exposto às fragilidades do presente.
A língua portuguesa, falada por mais de 260 milhões de pessoas — a 5.ª língua mais falada no mundo, a 3.ª mais falada no hemisfério ocidental e a mais falada no hemisfério sul — é um património comum que atravessa continentes e culturas. É veículo de criação literária, instrumento de pensamento e ponte entre povos. No entanto, essa riqueza convive com desafios significativos.
Um dos mais prementes é a crescente fragilidade da literacia. Ler e escrever, que deveriam ser práticas de aprofundamento, questionamento e descoberta, tornaram-se, muitas vezes, actos utilitários, apressados e superficiais. A velocidade da comunicação digital, embora democratize o acesso à informação, tem contribuído para uma relação mais pobre com a palavra. A abundância informativa não se traduz, necessariamente, em conhecimento — pelo contrário, pode alimentar uma compreensão fragmentada e acrítica da realidade.
Mais preocupante ainda é a fragilidade da capacidade de interpretação. Não se trata apenas de dificuldades técnicas de leitura, mas da incapacidade de apreender nuances, ironias, referências culturais e contextos históricos. Ora, interpretar é, em si mesmo, um exercício de liberdade. Quem não interpreta, repete; quem não questiona, aceita. E uma sociedade que aceita sem compreender torna-se inevitavelmente mais vulnerável à manipulação.
Enquanto licenciada em Humanidades, com formação em línguas clássicas, não posso deixar de sublinhar que estas preocupações não são novas. Já na Antiguidade se reflectia sobre a retórica, o uso persuasivo da linguagem e os riscos da sua distorção. As raízes clássicas da língua portuguesa, ainda hoje presentes no léxico e nas estruturas, lembram-nos que a palavra sempre foi uma ferramenta de poder — e, por isso, de responsabilidade. Conhecer a origem das palavras é também compreender o seu peso e usá-las com maior consciência.
Apesar dos desafios, há também oportunidades. A língua portuguesa tem hoje uma projecção global sem precedentes, impulsionada por comunidades dinâmicas e por uma produção cultural diversificada. As tecnologias digitais, quando bem utilizadas, podem ser aliadas na promoção da leitura, da escrita e do diálogo intercultural. Mas isso exige uma educação linguística exigente, que vá além da norma e valorize a interpretação, a argumentação e a sensibilidade estética.
Cuidar da língua não implica fixá-la, mas acompanhá-la na sua evolução sem abdicar da sua densidade e riqueza. Defender a língua não é conservá-la num estado imutável, mas garantir que evolui com profundidade e rigor. Isso passa por investir na educação, formar leitores críticos e valorizar o pensamento complexo.
Num tempo em que tanto se comunica e tão pouco se compreende, cuidar da língua é, em última instância, cuidar da própria democracia.


