
Portugal enfrenta dias duros. Cheias, destruição, famílias desalojadas, pequenas economias arrasadas. O estado de calamidade não é uma metáfora política nem um conceito académico, é água dentro de casas, é frio, é medo, é gente a precisar de ajuda imediata. E, curiosamente, nestes dias, nota-se uma ausência particularmente eloquente.
A mesma extrema esquerda que há pouco tempo encontrou energia, meios logísticos, tempo mediático e disponibilidade emocional para integrar flotilhas internacionais, com bandeiras ao vento, punhos erguidos e discursos inflamados sobre humanidade e solidariedade, parece agora ocupada demais para atravessar uma rua alagada, quanto mais uma região devastada. A solidariedade, ao que tudo indica, funciona melhor em águas estrangeiras do que na lama doméstica.
É um fenómeno curioso, quando a causa é distante, ideológica e fotogénica, surgem rapidamente os comunicados, as viagens, as selfies morais e as proclamações de superioridade ética. Quando a tragédia é concreta, incómoda, sem glamour e sem palco internacional, instala-se um silêncio disciplinado, quase estratégico. Afinal, distribuir cobertores não rende manchetes globais, ajudar vizinhos não dá estatuto revolucionário.
Não se questiona o direito à militância internacional nem a legitimidade das causas externas. Questiona-se, isso sim, a hierarquia da empatia. Porque razão a comoção seletiva parece mobilizar mais recursos do que a dor real de compatriotas? Porque é que a indignação atravessa oceanos com facilidade, mas tropeça em poças de água quando chega a casa?
Enquanto bombeiros exaustos, autarquias sobrecarregadas, voluntários anónimos e associações locais fazem o que podem, muitas vezes sem câmaras nem slogans, os autoproclamados paladinos dos oprimidos parecem ter perdido o mapa de Portugal. Talvez porque aqui não há inimigo abstracto suficientemente útil, nem narrativa simples que caiba num cartaz.
A ironia é cruel, mas instrutiva, quem mais fala de solidariedade é, por vezes, quem menos a pratica quando ela não é ideologicamente rentável. A verdadeira benemerência não escolhe causas pela latitude nem pelo potencial simbólico. Está presente quando dói, quando é incómodo, quando não há aplauso.
Portugal não precisa de flotilhas morais nem de heroísmos à distância. Precisa de mãos, de presença, de coerência. E, sobretudo, precisa que a solidariedade deixe de ser um acessório ideológico para voltar a ser aquilo que sempre foi, um dever humano básico, começando, naturalmente, POR CASA.


