
Em Portugal instalou-se um hábito tão velho quanto perigoso: a esquerda brinca com a economia até ao limite, a direita entra depois para “pôr as contas em ordem” – e, em troca, entrega de bandeja a cultura, a narrativa e a escola.
Durante décadas, a Direita dita moderada aceitou ser gerente de crise, enquanto a Esquerda se auto incumbiu de ser escritora oficial da história, a reorganizadora da memória e curadora da identidade nacional que lhes interessa. É por isso que hoje temos contas vigiadas, mas uma cultura, uma comunicação social e uma escola profundamente impregnadas de valores, linguagem e símbolos da Esquerda.
Sempre que a Direita chega ao poder, concentra-se nas contas, nas empresas, na fiscalidade e na produtividade. A pasta da Cultura é tratada como luxo dispensável, relegada, despromovida ou deixada em “gestão corrente” por quem já fala fluentemente o dialeto da esquerda progressista. Entretanto, a Esquerda ocupa os conselhos de leitura, os programas educativos, as artes e o entretenimento, reconstruindo à sua imagem a narrativa histórica, a ideia de família, o lugar da religião, o conceito de pátria e até a definição de homem e de mulher.
Para a Direita, hoje, lutar pela cultura é como entrar numa corrida de 800 metros com 30 segundos de atraso, descalça, na pista das barreiras e dos fossos, enquanto o adversário já leva 2 voltas de avanço nas cabeças e nos corações. Neste contexto, muitos agentes culturais passaram a ver três coisas como óbvias: primeiro, que um “artista sério” deve estar, por definição, alinhado com as causas da Esquerda progressista; segundo, que o apoio financeiro do Estado é um direito adquirido, venha quem vier para o governo; terceiro, que esse apoio não serve para dialogar com a maioria do povo que paga a conta, mas para agradar ao circuito fechado de pares e elites do mesmo ecossistema. Assim, a cultura tornou-se um corpo politicamente inclinado para a esquerda, sustentado pelos impostos de todos – incluindo os de quem não se revê nessa visão do mundo.
É neste cenário que aparece o caso concreto de Braga e dos Encontros da Imagem. Em 2026, o festival apresenta um orçamento superior a 320 mil euros, com receitas próprias que não chegam aos 10%. O Estado central, através da DGArtes, coloca 120 mil euros; a Câmara Municipal de Braga acrescenta 50 mil euros em numerário e mais de 120 mil euros em apoios não financeiros, desde a cedência de espaços expositivos até meios técnicos, frente de casa, limpeza e segurança. Na prática, o Município torna-se o principal mecenas de um festival com 36 edições, dependente dos contribuintes e com pouco apetite por sustentabilidade própria.
Mas não se trata apenas de financiar fotografia. O Plano de Atividades 2026 é explícito na gramática que assume: promover a diversidade étnica e cultural, a inclusão social, a igualdade de género, a cidadania e a sustentabilidade ambiental; trabalhar o tema “Território, Identidade e morfologia” através de deslocamento, migração, ecologia, transformações sociais e identidades divergentes.
É o léxico típico da Esquerda cultural contemporânea, o mesmo que encontramos em documentos internacionais e nos programas identitários da moda: multiculturalismo, fronteiras relativizadas, memórias “críticas”, género acima do sexo, minorias acima da cultura maioritária. A fotografia e as artes visuais são usadas como meios de construção de “pensamento crítico” e “memória coletiva”, mas sempre com o foco colocado em reconfigurar aquilo que nos definia: a nação, a fronteira, a tradição, a própria ideia de pertença.
A dimensão educativa do festival torna esta escolha ainda mais sensível. O serviço educativo propõe-se trabalhar com escolas básicas, secundárias, profissionais e universidades, usando materiais próprios, visitas 1
Crónica “Brácaros na Contra Mão
guiadas e oficinas, com apoio em transportes articulado com os municípios. No papel, é “mediação cultural”; na prática, é acesso privilegiado a crianças e jovens para trabalhar temas como identidade, migrações, diversidade étnica e igualdade de género, sem cláusulas claras de supervisão pedagógica da autarquia nem salvaguardas explícitas quanto ao papel das famílias. Não é a neutralidade cultural que se apresenta: é uma agenda bem definida, com selo artístico, paga por todos.
O enquadramento político local ajuda a perceber como isto se tornou normal. Em Braga, o executivo liderado pelo PSD integra uma vereadora oriunda do universo PS/PAN, a quem confiou – entre outras áreas – a Cultura. Ou seja, um partido que se diz de Centro-Direita entrega a chave da cultura municipal a uma sensibilidade claramente progressista, ligada às causas da nova Esquerda moral. A mensagem simbólica é simples: nós tratamos de rotundas e orçamentos, a Esquerda simpática trata da Cultura. Quando, mais tarde, chega à mesa um festival com programa ideológico alinhado com essa visão, a aprovação surge quase como uma formalidade.
Na votação do contrato de dinamização cultural com os Encontros da Imagem, PS, PSD, IL e ASB uniram-se para aprovar o pacote. O PS faz o que sempre fez: apoia um projeto que fala a sua língua cultural. O PSD e a IL, que se apresentam como alternativas à Esquerda, aceitam financiar sem grande contestação uma programação centrada nos valores de esquerda, que geralmente difundem uma mensagem antagónica e critica a eles. O ASB, que gosta de fugir às etiquetas ideológicas, mas que na prática é uma geringonça pseudocultural que apresenta um pensamento de Esquerda e um alinhamento declarado com o PS, acaba também como muleta desta agenda. Há aqui um modus operandi cultural: a Esquerda define a narrativa, o centro faz de conta que faz barulho, a Direita paga a conta.
Perante isto, o voto contra do vereador do CHEGA não é um capricho excêntrico. É a afirmação de que não aceitamos continuar a ser a Direita que trata de números enquanto outros tratam das almas e dos sonhos. O CHEGA votou contra porque recusa a subsidiação permanente de um festival adulto e altamente apoiado pelo Estado central; porque não aceita que o Município seja o principal financiador de uma agenda cultural claramente inclinada para a esquerda em temas sensíveis; e porque vê como grave a entrada deste programa nas escolas sem salvaguardas reais para as famílias e para a neutralidade ideológica.
O CHEGA nasceu para lembrar que uma Direita que dá a Cultura à Esquerda perde, de facto, o direito de escrever o futuro. Que não basta ter contas certas se a cultura, a escola e a narrativa histórica forem usadas para desconstruir a família, a pátria, a relação homem-mulher, a verdade histórica e os valores cristãos que moldaram o Ocidente.
Construir é definir. Desconstruir é recusar a definição. E quando tudo se torna fluido – nação, fronteira, família, homem, mulher – nada fica firme o suficiente para proteger alguém. Enquanto a Direita tradicional continuar a fugir da cultura, continuará a governar sempre em desvantagem: entra para apagar incêndios, mas deixa o fogo ideológico aceso na escola, nos festivais, nos museus, nos media e nas casas de todos.
O papel do CHEGA, na Cultura, é precisamente o oposto: tomar conta da Cultura com a mesma determinação com que defende contas certas, reerguendo a identidade nacional, a verdade histórica e a importância da família tradicional na educação.


