
Em dezembro de 2022 a Unidade de Cuidados de Saúde Personalizados (UCSP) da Apúlia fechou. A contestação patrocinada pelo Bloco de Esquerda (BE) e Partido Comunista Português (PCP) não tardou. “O centro de saúde tem que abrir”, “mobilizar a população”, publicações de muita indignação com palavras de revolta porque os idosos têm de se deslocar para longe se precisarem de uma consulta (sendo que “longe” representava 2km de distância da UCSP de Fão).
Recuemos um bocado no tempo…por que foi encerrado o edifício da UCSP de Apúlia? Porque foi considerado pela Unidade de Saúde Pública local que não havia condições de segurança para profissionais e utentes. Havia no ar substância voláteis que para além de terem um cheiro incomodativo, causavam irritação ocular e das vias aéreas, para não falar da hipótese de serem potencialmente cancerígenas. Havia inclusivamente profissionais a fazer medicação crónica para controlar alguns destes sintomas. Trabalhar era sinónimo de desconforto, preocupação e estava inclusive a potenciar doença crónica. Mas ainda assim o PCP e o BE achavam bem que a UCSP estivesse aberta. Sem reservas, porque o que importa é o populismo e causar a revolta popular. Outro facto importante, já há muito que se debatia que não estavam garantidas as condições de segurança. A situação já havia sido reportada por profissionais de saúde à direção do ACES de Barcelos/Esposende (denominaçao anteriormente usada nos cuidados de saúde primários, entretanto substituída pela Direção Clínica para os Cuidados de Saúde Primários da Unidade Local de Saúde de Barcelos/Esposende), sem nunca terem sido feitas diligências para avaliar o risco. Sabemos que fechar o que quer que seja não é bem visto (como se pôde ver pela reação do PCP e BE) e portanto a Direção do ACES preferiu manter a postura do “está tudo bem”, negligenciando a saúde dos profissionais.
Avancemos no tempo, hoje a UCSP de Apúlia é parte integrante da USF EntreMarés com um edificado renovado, com excelentes condições, bons gabinetes de trabalho, ar condicionado, espaço dedicado à saúde materno-infantil, entre outras valências. Um pormenor que não é de menor importância, os profissionais estão satisfeitos com as condições do local.
Agora uma nota final, no pólo de Fão, pertencente à mesma unidade de saúde, questiona-se a existência de situação de risco semelhante, evidenciado pelo mesmo odor característico, e que tem vindo a agravar-se recentemente. Estará esta situação a ser convenientemente avaliada e levada em consideração pelos órgãos da Direção, ou mais uma vez não haverá coragem para enfrentar eventuais reclamações, ao existir necessidade inerente de encerramento temporário?
E será que não existem em Portugal outros casos semelhantes e que ainda não tiveram oportunidade de serem verdadeiramente ouvidos e escrutinados?
Por vezes, é necessário haver alguma audácia para enveredar pelo caminho mais difícil e enfrentar eventuais represálias, se o objetivo final for o bem comum. Afinal, o que se conseguiu foram condições dignas a quem lá trabalha e aos utentes que da USF precisam.


