OpiniãoA maré baixa

A maré baixa

Artigo de Marta Cerqueira Gonçalves, Advogada/Auditora e Membro da Assembleia Municipal de Braga eleita por Amar e Servir Braga.

© Marta Cerqueira Gonçalves

Há um momento em todas as praias que quase ninguém observa. Não acontece quando o sol nasce nem quando o último banhista dobra o guarda-sol. Acontece muito antes de alguém reparar. A água começa a recuar sem fazer barulho, como se pedisse licença para abandonar a areia. Não há espetáculo, não há alarme, não há pressa. Apenas um movimento lento e inevitável. A maré tem uma honestidade rara. Nunca esconde nada para sempre. Pode cobrir pedras, esconder algas, disfarçar destroços ou suavizar o relevo da costa, mas fá-lo apenas por algum tempo. Mais cedo ou mais tarde regressa ao lugar de onde partiu e deixa tudo novamente à vista. A maré não cria a realidade; limita-se a torná-la visível. Talvez seja por isso que gosto tanto do verão. Porque agosto faz connosco aquilo que a maré faz com a costa: retira o excesso. Retira o ruído das agendas, a velocidade dos dias, a sucessão interminável de compromissos. De repente, sobra tempo. Tempo para caminhar, para ler, para conversar e, sobretudo, para olhar. E olhar devagar continua a ser uma das formas mais exigentes de inteligência.

O resto do ano vive-se depressa. As notícias sucedem-se antes de compreendermos as anteriores, as certezas substituem as perguntas e a velocidade transforma o acessório em prioridade. Talvez seja por isso que tantas vezes confundimos a superfície com a profundidade. A espuma é bonita. Reflete a luz, desenha formas e chama a atenção, mas desaparece ao primeiro sopro de vento. O mar permanece. Só quando a água recua percebemos a diferença. Só quando existe distância conseguimos distinguir o que resistiu ao tempo daquilo que dependia apenas do entusiasmo do momento. Só quando o silêncio substitui o ruído começamos verdadeiramente a fazer perguntas.

Também a vida pública conhece as suas marés. Há períodos em que tudo parece correr sobre rodas. Multiplicam-se anúncios, inauguram-se projetos, sucedem-se promessas e acumulam-se discursos onde quase tudo surge apresentado como inevitável. Durante algum tempo, a narrativa parece suficiente para explicar a realidade. Mas, como acontece com o oceano, nenhuma superfície permanece intacta para sempre. Chega sempre o momento em que a água baixa. É então que regressam as perguntas que tinham ficado submersas. O que aconteceu ao que era apresentado como certo? Porque mudou o que parecia definitivo? Em que momento a convicção deu lugar à conveniência? E, sobretudo, quem assume a responsabilidade de explicar aos cidadãos que a realidade acabou por seguir um caminho diferente daquele que lhes foi prometido? É indiferente que se trate da política nacional ou da política autárquica. Muda a dimensão do palco, mas não muda a natureza humana. Continuamos demasiado disponíveis para confundir comunicação com transparência, maioria com razão e legalidade com ética. Esquecemo-nos de que cumprir a lei constitui apenas o ponto de partida. A integridade começa exatamente onde termina a obrigação.

Como advogada e auditora de compliance aprendi que uma organização não se torna íntegra porque publica um código de ética ou aprova um plano de prevenção. Esses instrumentos são indispensáveis, mas valem pouco se não condicionarem verdadeiramente a forma como se decide. A integridade revela-se quando a decisão mais fácil não coincide com a decisão certa; quando existe coragem para reconhecer um erro, explicar uma mudança de rumo e prestar contas sem esperar que o tempo faça desaparecer as perguntas. A política não é diferente. Há muito que aprendemos a legislar sobre transparência, a multiplicar mecanismos de controlo e a produzir códigos de conduta. O que continua a faltar, demasiadas vezes, é a cultura de responsabilidade que dá sentido a todos esses instrumentos. É precisamente aí que começa a erosão silenciosa da confiança. Não quando alguém erra – porque errar faz parte da condição humana -, mas quando se procura esconder o erro em vez de o assumir e quando a comunicação substitui a explicação.

O verão acabará por despedir-se. Voltaremos às agendas cheias, às reuniões, ao trânsito e ao ritmo acelerado que tantas vezes nos impede de pensar. Talvez, antes disso, valha a pena guardar uma lição do mar. A maré nunca tenta esconder aquilo que deixa para trás. Recua sempre e revela, com a serenidade de quem nada tem a provar, aquilo que sempre esteve ali. Também a democracia merece ser observada nesses momentos. Porque não é na maré cheia, quando tudo parece perfeito, que descobrimos a verdadeira forma da costa. É na maré baixa.

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