
O autismo clássico — esse mistério que ninguém sabe de onde vem, nem por que escolhe determinados caminhos — transforma os gestos mais simples em desafios silenciosos. Ensina-nos que amar é também respeitar o tempo, as rotinas, os silêncios e os “nãos”.
Há 38 anos que caminhamos contigo, meu filho Bruno. São quase quatro décadas de amor sem medida, de dedicação sem descanso e de aprendizagem constante. Aprendemos a conhecer os teus gostos, a respeitar as tuas vontades e a compreender os teus silêncios. Aprendemos a procurar o teu olhar e a celebrar cada instante em que os teus olhos encontram os nossos. Ensinei-te os beijos, e tu tornaste-te beijoqueiro.
Gostas da tua música, do teu tablet, dos vídeos que procuras no YouTube e dos rádios que te acompanham durante horas. Vestes as roupas que escolhes ao teu gosto, com a liberdade simples de quem vive fiel a si próprio. Tens sido a nossa vida.
Mas os anos passam. Nós envelhecemos. E há um medo implacável que nunca nos abandona: o dia em que já não possamos cuidar de ti.
Quem saberá perceber se estás feliz ou inquieto? Quem entenderá os teus gestos? Quem saberá que procuras as tuas frutas, as sobremesas no frigorífico ou os alimentos de que tanto gostas? Quem escutará aquilo que dizes sem palavras? Tememos que o mundo não tenha a paciência que o amor sempre teve. Tememos que confundam a tua maneira de ser com algo que precise de ser silenciado. Tememos que te façam calar, quando tudo o que precisas é de compreensão.
Porque vivemos em ti. Em cada hora, em cada dia, em cada ano da tua vida. Amamos-te de tal forma que já não sabemos imaginar a existência sem ti. O cansaço transforma-se em força. A fragilidade transforma-se em coragem. Não podemos quebrar, não podemos desistir, não podemos adoecer. Por ti, encontramos sempre razões para continuar.
Tu precisas de regras, de rotinas e de mudanças suaves, quase sussurradas, para que possas acompanhá-las serenamente. E, ainda assim, viveste e vives plenamente connosco. Viajaste por lugares distantes, mergulhaste em oceanos, correste por praias de areia dourada e sentiste o mundo. Não foi uma caminhada fácil, mas tem sido uma bela caminhada. E assim prosseguimos, de mãos dadas.
Ao longo destes anos, aprendemos contigo um mundo diferente: um mundo sem mentiras, sem interesses escondidos, onde a simplicidade vale mais do que todas as aparências. Eu e a tua mãe só temos a agradecer-te. Obrigado pelo que nos ensinaste, pelo amor que nos deste e pela forma como nos mostraste que a verdadeira riqueza está nas coisas mais simples.
Que continuemos abraçados, nós os três. E também o nosso Jolie, o cão que se enrola nas tuas pernas quando te deitas na cama, pois também ele sabe que és um tesouro especial.
Sim, Bruno, és o amor que nos fortalece. Talvez seja um sonho utópico, olhando a realidade que nos cerca e que conhecemos bem, mas a nossa maior esperança é que, quando já não estivermos aqui, a sociedade saiba finalmente merecer-te, respeitar-te, proteger-te e amar-te. Tivemos de lutar muito pelos teus direitos e pelos de todos os que são especiais como tu. Por ti, abdicamos de muito da trivial existência individual. E prosseguimos de coração cheio, porque tu, filho querido, és a mais bela razão pela qual vale a pena viver.


