OpiniãoBraga Romana: quando o passado exige futuro

Braga Romana: quando o passado exige futuro

Artigo de Tiago do Val, membro da Assembleia de Freguesia de São Vicente pela Iniciativa Liberal.

© IL

Braga volta, mais uma vez, a ser Bracara Augusta. A Braga Romana não é apenas um evento de recriação histórica: é um retrato vivo de uma cidade que se recusa a ser pequena. No meio dos escudos, toga, gladiadores e mercados antigos, respira‑se uma ideia simples, mas poderosa: Braga tem um passado de referência… e merece um futuro à mesma altura.

Foi a única cidade criada pelo imperador Augusto no atual território português a norte do Douro, funcionando como um polo de irradiação da cultura, língua (latim) e costumes romanos para os povos indígenas (brácaros).

Porque, quando se caminha em direção à Sé e ao largo do Paço, cruzando legionários, magistrados e mercadores, é difícil não pensar numa pergunta incómoda: se Braga foi importante no passado, por que hei de ser modesta hoje? A cidade que nasceu sob o signo de Roma, sob o signo de Césares não foi feita para protagonizar pequenas histórias; foi feita para grandes narrativas.

A história de Bracara Augusta é bem mais do que linha de tempo num livro escolar. Foi capital da região da Gallaecia, ator político e económico do Noroeste Peninsular, cidade de magistrados, de santuários e de mercadores. Braga, nessa época, não era apenas um ponto lateral no mapa: era o centro, um lugar de convergência, de poder, de decisão e de influência.

Convém referi que esta herança não é apenas romanticismo. É sim uma prova de que Braga tem um gene de centralidade. Quando se olha para o papel que já teve no passado, é difícil compreender que a cidade aceite, de forma silenciosa, um lugar secundário (atrevem a ri mais longe e dizer terciário) na discussão sobre o futuro do país ou o seu impacto. A memória histórica exige humildade, certo, mas também exige coragem para assumir o peso que se carrega, e sobretudo coragem aos agentes políticos da cidade, município, executivo e oposição.

Braga Romana é, por isso, muito mais do que uma atracão turística. Mostra‑nos como Braga domina o eixo medieval, como abraça o turismo, como transforma o património em espetáculo, mas, também, como ainda não foi totalmente capaz de traduzir essa força histórica e cultural em projeção política, económica e institucional à escala nacional, esta cidade e o seus habitantes merecem mais e melhor.

A feira romana faz parte da história da nossa cidade, é um marco, reúne milhares de pessoas, capta olhares da comunicação social, atrai visitantes de fora. Mas, ao mesmo tempo, deixa emergir um sentimento: se conseguimos fazer isto com o passado, por que não fazemos tanto, ou mais, com o futuro? Porque não podemos ser mais ambiciosos no papel que temos no país, no Norte, no Minho?

Braga não é apenas uma “cidade histórica” ou uma “cidade religiosa”. É, hoje, uma cidade de universidades, de empresas, de serviços, de tecnologia e de cultura. Tem população jovem, tem dinamismo, tem tradição e tem rede. Mas, por vezes, o seu protagonismo não corresponde ao tamanho do seu potencial.

Será culpa da classe política que liderou a cidade nas últimas décadas? Certamente que tem a sua responsabilidade. No entanto, não podemos isentar as forças políticas nacionais, sobretudo os maiores partidos, PS e PSD que contribuíram para aprofundar ainda mais o centralismo. Deputados eleitos pelo círculo de Braga que pouco ou nada fizeram pela cidade são também culpados do estado atual da cidade. Pedia-se mais, muito mais.

Basta olhar para o estado atual de Braga: desordem urbanística, trânsito caótico, habitação muitas vezes financeiramente incomportável, transportes públicos deficitários, entre outros problemas evidentes. Nos últimos 10 a 20 anos, não houve qualquer investimento de grande impacto por parte do Estado central que tivesse transformado a vida dos bracarenses.

E no que toca a infraestruturas, duas grandes obras estruturais continua -se sem se ver luz ao fundo do túnel — Nó de Infias e a variante do Cávado.

Neste mês de Maio, nesta semana de Braga Romana, desperta em mim — e seguramente em muitos bracarenses — o sentimento de que a cidade merece mais e tem potencial para tal.

Se Bracara Augusta era centro de poder, de religião e de comércio, Braga de hoje pode ser centro de inovação, de formação, de cultura e de liderança regional. Isso não acontece por acaso; acontece por ambição, por plano e por vontade política.

Uma das ferramentas para esse caminho seria, sem dúvida, a criação da famosa área metropolitana de Braga ou Minho — uma área metropolitana que não englobe a apenas cidade, mas sim também os seus parceiros: Vila Verde, Barcelos, Vila Nova de Famalicão, Guimarães e Amares.

A memória romana não deve servir apenas para desfilar trajes, tirar fotos, aparecer no jornal, vender artesanato ou encher notícias de cor. Deve ser um motor de identidade. Braga tem o direito, e até à obrigação, de exigir uma posição de relevo: na distribuição de investimentos públicos, na localização de infra‑estruturas estratégicas, na atração de empresas, na promoção cultural e na visibilidade nacional.

Porque uma cidade que nasceu romana não combina bem com a modéstia, combina melhor com a ousadia.

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