
A estação de comboios de Barcelos, outrora um ponto de encontro, partida e chegada, símbolo de progresso e mobilidade, foi sendo empurrada, ano após ano, para um estado de abandono que hoje se confirma com mais uma medida drástica: o encerramento da bilheteira e a sua transformação numa estação fantasma.
O que vemos agora não é fruto do acaso, mas o culminar de um processo lento e profundamente negligente por parte das entidades responsáveis.
Quando estudava no Porto, o comboio era o meu meio de transporte diário: acessível, rápido e eficiente. Na altura não se pensava nisso, mas era também uma escolha sustentável. Durante décadas, a linha férrea foi muito mais do que um simples serviço: representou para Barcelos uma ligação vital, um elo entre famílias, estudantes, trabalhadores e visitantes. Porém, esse elo foi sendo enfraquecido.
Primeiro surgiram os cortes subtis, mas letais: menos horários, menos comboios. O que era uma oferta regular e fiável tornou-se escasso, obrigando os cidadãos a procurar alternativas rodoviárias. Assim começou o círculo vicioso: menos oferta gerou menos procura, e essa quebra foi usada como desculpa para novos cortes.
Agora, o golpe final: o encerramento da bilheteira. A estação perde vida, proximidade e apoio humano. Comprar um bilhete, pedir ajuda ou resolver um problema passou a ser tarefa digital ou deslocação para outra cidade. A mensagem é clara: Barcelos já não merece uma estação viva, apenas um apeadeiro despersonalizado, entregue ao esquecimento.
Isto não é apenas um erro de gestão — é um ataque à dignidade da cidade e dos seus habitantes. Barcelos, concelho com mais de 116 mil pessoas e um tecido económico dinâmico, não pode ser tratado como secundário. Aceitar o esvaziamento da estação é aceitar menos direitos, menos mobilidade e menos futuro.
Mais grave ainda é a postura de quem devia defender a população: sucessivos executivos camarários que optaram pelo silêncio cúmplice, em vez de exigirem soluções e pressionarem pela preservação da estação. Essa passividade abriu caminho ao centralismo, que decidiu por nós e empurrou Barcelos para a irrelevância ferroviária.
Hoje, a estação é o retrato de uma oportunidade perdida. Paredes que já testemunharam movimento e dinamismo agora ecoam vazio. Mas este não pode ser o fim.
Barcelos tem de reivindicar uma estação moderna, digna e integrada nos planos de mobilidade nacional. Os cidadãos não podem calar-se perante mais este ataque à qualidade de vida. Exige-se clareza, planeamento e respeito.
Porque uma cidade sem estação não é apenas uma cidade sem comboios. É uma cidade desligada, esquecida e votada à irrelevância. E isso, Barcelos não pode aceitar.


