São 249 dádivas de sangue, centenas de horas dedicadas ao próximo e um impacto que pode ter chegado a 747 pessoas. O Hospital de Braga homenageou os quatro dadores em atividade com maior número de dádivas registadas no Banco de Sangue da instituição, reconhecendo um exemplo de solidariedade que atravessa gerações.
A cerimónia integrou as comemorações do Dia Mundial do Dador de Sangue, assinalado a 14 de junho, e distinguiu Raul Torres Veloso, com 81 dádivas, Manuel Alberto Esteves Oliveira, Joaquim Miguel Vieira Gomes e João Carvalho Garrido, todos com 56 dádivas realizadas.
De acordo com o Hospital de Braga, considerando que cada dádiva pode beneficiar até três pessoas, o contributo conjunto destes quatro cidadãos poderá ter ajudado até 747 doentes em situações de urgência, intervenções cirúrgicas, tratamentos oncológicos e outras circunstâncias clínicas que dependem da disponibilidade de sangue.
Entre os homenageados, Raul Torres Veloso continua a ser um exemplo de perseverança. Aos 81 anos, recorda que regressou às dádivas quando a idade limite foi alargada para os 70 anos. Atualmente soma 81 dádivas e mantém um objetivo ambicioso: alcançar as 120.
“O sangue não se fabrica. Temos de ser nós a dar sangue para salvar vidas”, afirmou durante a cerimónia, acrescentando que também os seus dois filhos seguiram o exemplo e se tornaram dadores.
O presidente do Conselho de Administração da Unidade Local de Saúde de Braga, Américo Afonso, destacou que os números alcançados pelos quatro homenageados representam muito mais do que estatísticas. “Representam vidas apoiadas, famílias ajudadas e uma demonstração exemplar de solidariedade”, sublinhou.
A homenagem surge numa altura em que as instituições de saúde continuam a alertar para a necessidade de manter reservas adequadas de sangue, apelando à participação de novos dadores. Sendo um recurso que não pode ser produzido artificialmente, a dádiva voluntária continua a ser essencial para garantir a resposta do Serviço Nacional de Saúde e salvar vidas diariamente.
O Parque de Gerizes acolheu, nos dias 9 e 10 de junho, mais uma edição da Festa da Comunidade, iniciativa que juntou centenas de pessoas da União de Freguesias de Merelim São Pedro e Frossos, em Braga, num ambiente marcado pelo convívio, pela cultura popular e pelo associativismo local.
Com entrada gratuita, o evento contou com um programa diversificado que incluiu música ao vivo, celebrações religiosas, cantares tradicionais e folclore, promovendo o encontro entre diferentes gerações da comunidade. A iniciativa contou ainda com a presença do presidente da Câmara Municipal de Braga, João Rodrigues.
As festividades arrancaram na noite de terça-feira com a atuação do grupo “4 Mens” e do projeto “We All Love”, que proporcionou uma viagem musical por alguns dos maiores êxitos das últimas décadas, atraindo um elevado número de participantes ao recinto.
O segundo dia começou com uma eucaristia campal, num momento de cariz religioso que reuniu dezenas de fiéis. O programa prosseguiu com os tradicionais Cantares ao Desafio, que contaram com as participações de Cachadinha, Cachadinha Júnior, Deolinda Passos e Peixoto de Braga.
O encerramento da programação cultural ficou a cargo do Festival de Folclore, organizado pelo Grupo Folclórico do Vale do Cávado, que levou ao palco as tradições e costumes populares da região.
A iniciativa envolveu ainda várias associações e coletividades locais, entre as quais o Grupo de Jovens de Frossos e o Movimento Familiar Cristão, reforçando o espírito de colaboração comunitária que caracteriza o evento.
Segundo a organização, a Festa da Comunidade voltou a afirmar-se como um espaço privilegiado de encontro entre a população, promovendo a valorização das tradições locais e o fortalecimento dos laços entre as duas freguesias.
O centro da cidade está a ultimar os preparativos para receber as Festas de São João de Braga. A Praça da República e a Avenida Central já se encontram repletas de cor, refletindo o ambiente festivo que antecede uma das maiores celebrações da cidade.
As ornamentações deste ano incluem imagens dos santos e padroeiros de Braga, numa alusão ao mote escolhido para a edição de 2026: “A Procissão de São João”.
De acordo com Ana Daniela Pereira, presidente da Associação de Festas de São João de Braga, “a procissão realiza-se no dia 24 de junho e é o mote para o imaginário deste ano, permitindo valorizar, uma vez mais, as nossas tradições, que constituem uma marca identitária do São João de Braga”.
Recorde-se que as festividades arrancam já na próxima quarta-feira, 17 de junho. Entre os momentos de destaque da programação inaugural estão a inauguração das iluminações festivas, marcada para as 22:00 na Avenida Central, e o concerto dos Amigos de Sobreposta, também às 22:00, no Parque da Ponte.
O secretário de Estado da Cultura, Alberto Santos, anunciou em Barcelos a certificação do Caminho Português de Santiago – Caminho de Torres – Região Norte, uma medida que considera contribuir para a valorização do património jacobeu nacional e que terá impacto direto no concelho barcelense.
O anúncio foi feito durante a sessão de abertura das Jornadas Europeias de Arqueologia 2026, que decorreu nos Paços do Concelho de Barcelos e reuniu especialistas, investigadores e responsáveis ligados à área do património cultural.
Segundo o governante, a certificação, formalizada através de uma portaria publicada em Diário da República e assinada conjuntamente com a Secretaria de Estado do Turismo, abrange um percurso com cerca de 180 quilómetros que atravessa 15 municípios do Norte do país. O itinerário integra património arqueológico, arquitetónico e religioso, bem como paisagens culturais, memória histórica e património imaterial.
Durante a sua intervenção, Alberto Santos destacou também a relevância do património arqueológico de Barcelos, considerando que o concelho tem desenvolvido um trabalho consistente na investigação, proteção e valorização dos seus recursos patrimoniais. Entre os exemplos referidos estiveram o Castelo de Faria, os povoados castrejos e outros vestígios arqueológicos existentes no território.
Na abertura da sessão, o presidente da Câmara Municipal de Barcelos, Mário Constantino Lopes, sublinhou a riqueza arqueológica do concelho e destacou vários projetos de investigação e valorização patrimonial em curso. O autarca defendeu ainda que os espaços arqueológicos devem ser acessíveis e compreensíveis para todos os cidadãos, promovendo uma maior aproximação entre o património e a comunidade.
O programa incluiu ainda a mesa-redonda “Perspetivas da Investigação e Valorização em Castros”, que reuniu investigadores e arqueólogos ligados ao estudo do fenómeno castrejo, bem como a apresentação do 28.º volume da Revista Portuguesa de Arqueologia.
As Jornadas Europeias de Arqueologia decorrem entre 12 e 15 de junho em 30 países europeus e têm como principal objetivo aproximar a arqueologia dos cidadãos, promovendo o conhecimento, a valorização e a preservação do património cultural. Em Portugal, a iniciativa é coordenada pelo Património Cultural, I.P..
A Guarda Nacional Republicana (GNR) deteve 622 pessoas em flagrante delito entre os dias 5 e 11 de junho, no âmbito de um conjunto de operações realizadas em todo o território nacional. As ações tiveram como objetivo a prevenção e combate à criminalidade, a fiscalização rodoviária e o controlo de infrações de natureza contraordenacional.
Entre as detenções efetuadas, destacam-se 234 por condução sob o efeito do álcool e 110 por condução sem habilitação legal. Foram ainda detidas 42 pessoas por tráfico de estupefacientes, 33 por furto e roubo, 27 por violência doméstica, nove por posse ilegal de armas ou armas proibidas e seis por incêndio florestal.
No mesmo período, a GNR apreendeu mais de 1.300 doses de haxixe, cerca de 191 doses de cocaína, 24 doses de liamba e diversas quantidades de MDMA, além de 14 pés de canábis. As autoridades apreenderam igualmente 32 armas de fogo, 13 armas brancas ou proibidas, 1.132 munições, 14 veículos e 5.716 euros em numerário.
No âmbito da fiscalização rodoviária, foram registadas 6.758 infrações. O excesso de velocidade voltou a liderar a lista das infrações mais detetadas, com 2.847 ocorrências.
Foram ainda identificadas 1.060 infrações por falta de inspeção periódica obrigatória, 372 por condução com taxa de álcool superior ao limite legal, 325 relacionadas com anomalias nos sistemas de iluminação e sinalização, 296 associadas ao incumprimento das regras dos tacógrafos e 223 por ausência de seguro de responsabilidade civil.
A utilização indevida do telemóvel durante a condução motivou 173 autos de contraordenação, enquanto 190 infrações estiveram relacionadas com a falta ou incorreta utilização do cinto de segurança e dos sistemas de retenção para crianças.
Segundo a GNR, estas operações inserem-se na atividade regular da força de segurança e visam reforçar a segurança rodoviária, a prevenção da criminalidade e a proteção das populações.
Uma mulher de 85 anos ficou ferida na sequência de um atropelamento ocorrido na manhã deste sábado, numa passadeira situada junto ao Tribunal Administrativo e Fiscal de Braga.
Segundo O Minho, o acidente aconteceu cerca das 09:30, no cruzamento da Rua 25 de Abril com as ruas de Damão e de Diu, numa zona próxima da Avenida da Liberdade e da Escola Secundária D. Maria II.
A vítima, residente nas imediações, foi assistida no local por elementos da Delegação de Braga da Cruz Vermelha Portuguesa e posteriormente transportada para o Hospital de Braga para avaliação e tratamento.
As circunstâncias do atropelamento estão agora a ser apuradas pela Esquadra de Trânsito da PSP de Braga, que tomou conta da ocorrência.
A XIV edição da Feira Afonsina abriu portas esta quinta-feira em Guimarães, devolvendo o Centro Histórico e a Colina Sagrada ao século XII através de uma ampla recriação histórica dedicada aos primórdios da nacionalidade portuguesa.
Subordinado ao tema “A Afirmação do Infante”, o certame deste ano recria os acontecimentos de 1126, período considerado decisivo no percurso político de D. Afonso Henriques e na consolidação do caminho que conduziria à fundação do Reino de Portugal.
A poucos anos das comemorações dos 900 anos da Batalha de São Mamede, previstas para 2028, a edição deste ano assume um significado especial, reforçando a ligação de Guimarães ao momento fundador da nacionalidade.
A abertura oficial contou com a presença do presidente da Câmara Municipal de Guimarães, Ricardo Araújo, e dos restantes membros do executivo municipal, que percorreram os diferentes espaços do evento. A comitiva visitou as áreas de recriação histórica, os mercados medievais, as zonas de restauração e os diversos pontos de animação espalhados pelo recinto, contactando com artesãos, associações e participantes.
Durante a visita, Ricardo Araújo destacou a importância da iniciativa na preservação da memória histórica e na valorização da identidade local, numa altura em que a cidade se prepara para assinalar os 900 anos da Batalha de São Mamede.
Até domingo, a Feira Afonsina promete atrair milhares de visitantes ao coração de Guimarães, oferecendo um programa composto por cortejos, espetáculos, recriações históricas, gastronomia, artes e ofícios tradicionais. Centenas de participantes dão vida aos episódios que marcaram o nascimento de Portugal, transformando a cidade num verdadeiro palco vivo da História.
O Campeonato do Mundo de Enduro GP arrancou oficialmente em Fafe com a realização da conferência de imprensa de apresentação da prova e dos pilotos, reforçando o estatuto do concelho como uma das principais referências internacionais dos desportos motorizados.
A sessão contou com a presença do Secretário de Estado do Desporto, Pedro Dias, do presidente da Câmara Municipal de Fafe, Antero Barbosa, do presidente da Natureza Alternativa – Associação Cultural e Desportiva, Marco Correia, e do promotor da Prime Stadium, Francisco Pita.
Embora a competição tenha agora o seu início oficial, os últimos dias foram marcados por diversas atividades integradas no programa do evento, com enfoque na sustentabilidade ambiental, inclusão social e ligação à comunidade. Entre as iniciativas realizadas destacam-se ações de educação ambiental e intergeracional, visitas a áreas de reflorestação, atividades de bem-estar, momentos de inclusão com a Cercifaf e iniciativas de valorização da identidade local e do património desportivo do concelho.
Na sua intervenção, Pedro Dias destacou a forte ligação histórica de Fafe aos desportos motorizados, sublinhando o sucesso que o concelho tem alcançado na organização de grandes eventos da modalidade. O governante salientou ainda o impacto económico gerado por iniciativas desta dimensão e elogiou a estratégia seguida pelo município.
Já Francisco Pita referiu que a dupla ronda do Enduro GP poderá representar cerca de 26 milhões de euros de impacto económico para o concelho, destacando igualmente a aposta na sustentabilidade através da realização daquele que classificou como o primeiro estudo ambiental desenvolvido numa prova de desporto motorizado.
Marco Correia mostrou-se confiante na qualidade da organização e dos percursos preparados para a competição, considerando que Fafe receberá duas das melhores provas do calendário mundial.
Por sua vez, Antero Barbosa reforçou a identidade do concelho associada aos desportos motorizados, à natureza e à adrenalina, agradecendo à Prime Stadium e à Natureza Alternativa pela colaboração na realização do evento. O autarca salientou ainda os benefícios turísticos e económicos que a competição traz para a região.
Após a conferência, os pilotos participaram na tradicional fotografia junto aos Paços do Concelho e desfilaram pelas ruas da cidade, assinalando simbolicamente o início da competição.
O programa competitivo arrancou com a Super Teste, enquanto as provas principais decorrem entre 12 e 14 de junho, na zona de Argande, e entre 19 e 21 de junho, em Revelhe e Estorãos. Ao longo de duas semanas, o evento deverá mobilizar mais de 1.500 pessoas por dia na área dos paddocks, atraindo milhares de visitantes e aficionados da modalidade.
A Associação Recreativa e Cultural Flor do Monte, da freguesia da Carreira, venceu pela primeira vez o concurso das Marchas Antoninas de Vila Nova de Famalicão, numa edição marcada pela celebração das Antoninas como Património Cultural Imaterial de Portugal.
Inspirada no tema “A joia da Coroa do concelho”, a marcha destacou-se pela valorização da identidade, da memória coletiva e das tradições locais, conquistando o júri e alcançando um total de 140 pontos. Além da vitória na classificação geral, arrecadou também os prémios de Melhor Coreografia e Melhores Arcos.
O segundo lugar foi atribuído à GARRA – Grupo Associativo e Recreativo Ribeirão em Ação, com 132 pontos, distinguida ainda com os prémios de Melhor Letra e Melhor Música. Com a mesma pontuação, a Associação do Coração, de Vale São Cosme, garantiu a terceira posição.
Entre os prémios individuais, a Associação Desportiva e Cultural de São Martinho de Brufe recebeu a distinção de Melhor Guarda-Roupa, enquanto a Associação Cultural e Recreativa São Pedro de Riba d’Ave conquistou o prémio de Marcha Mais Popular.
A noite levou milhares de pessoas às ruas da cidade para assistir ao desfile das dez marchas participantes, num dos momentos mais emblemáticos das Festas Antoninas. O ambiente de festa, marcado pela música, cor e entusiasmo do público, voltou a evidenciar a forte ligação da comunidade a esta tradição.
No final do espetáculo, o presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão, Mário Passos, destacou a mobilização da população e das associações locais. O autarca considerou que a forte adesão do público demonstra a vitalidade desta manifestação cultural e enalteceu o trabalho desenvolvido pelas coletividades na preparação das marchas.
As Festas Antoninas terminam este sábado, feriado municipal, com as celebrações religiosas em honra de Santo António, que incluem a Missa Solene, a distribuição do Pão de Santo António, a Procissão Solene e, à noite, o concerto de Nena no Parque da Devesa, seguido de uma sessão de fogo de artifício.
Durante anos, discutimos a inteligência artificial como se o seu principal impacto fosse substituir pessoas. A pergunta repetia-se em conferências, debates políticos e conversas de café: que empregos vão desaparecer? Que profissões serão automatizadas? Que tarefas deixarão de precisar de intervenção humana?
A pergunta continua a ser relevante, mas talvez não seja a mais urgente. O risco mais próximo pode não ser a inteligência artificial pensar melhor do que nós. Pode ser nós deixarmos, pouco a pouco, de pensar com a profundidade necessária.
A inteligência artificial generativa trouxe algo extraordinário: acesso instantâneo a explicações, sínteses, argumentos, textos, imagens, código e soluções para problemas complexos. Nunca foi tão fácil obter uma resposta. Mas essa facilidade tem um preço. Quando uma resposta surge em segundos, redigida com segurança, clareza e aparente autoridade, cria-se uma ilusão poderosa: a de que saber perguntar equivale a compreender.
Não equivale.
Compreender exige esforço. Exige tempo. Exige hesitação, erro, confronto de ideias, revisão de argumentos e capacidade de distinguir entre uma formulação elegante e uma conclusão verdadeira. A inteligência artificial é particularmente perigosa não quando responde mal, mas quando responde bem demais. Ou, pelo menos, quando responde de forma suficientemente convincente para nos dispensar do incómodo de pensar.
Esta é uma questão decisiva para a educação. O problema não está apenas nos estudantes que usam IA para fazer trabalhos. Está numa transformação mais profunda: a passagem de uma cultura de aprendizagem para uma cultura de produção rápida de respostas. Se a escola e a universidade avaliarem apenas o resultado final, a IA será inevitavelmente usada como atalho. Mas se avaliarem o raciocínio, o processo, a argumentação e a capacidade de defender uma posição, então a IA pode tornar-se uma ferramenta poderosa de aprendizagem.
A diferença está no modo de utilização. Há quem use a IA para automatizar o esforço: pede, copia, entrega. Há quem a use apenas para confirmar aquilo que já pensava. E há quem a use para discutir: pede contra-argumentos, exige justificações, identifica contradições, testa hipóteses, compara fontes, revê conclusões. Só neste último caso a inteligência artificial amplia verdadeiramente a inteligência humana.
Por isso, a literacia digital do futuro não pode limitar-se a ensinar como usar ferramentas de IA. Terá de ensinar como desconfiar delas. Como formular melhores perguntas. Como pedir evidência. Como reconhecer respostas plausíveis mas frágeis. Como resistir ao conforto da primeira explicação. Como transformar a máquina num interlocutor exigente, e não num oráculo obediente.
Este desafio ultrapassa a escola. Nas empresas, na administração pública, nos tribunais, nos hospitais e nos meios de comunicação social, a IA começará a apoiar decisões cada vez mais relevantes. O perigo não está apenas nos erros dos sistemas. Está na complacência humana perante sistemas que parecem competentes. Uma recomendação produzida por uma máquina sofisticada pode ser aceite com menos resistência do que a opinião de uma pessoa, precisamente porque vem revestida de neutralidade técnica.
É aqui que nasce o chamado viés de automação: a tendência para confiar demasiado na resposta da máquina. E quanto mais fluente, rápida e personalizada for essa resposta, maior será a tentação de a aceitar sem escrutínio. Ter “um humano no circuito” não basta, se esse humano estiver apenas a carimbar decisões que já não compreende plenamente.
Portugal deve olhar para este debate com atenção. Num país que continua a enfrentar fragilidades estruturais na qualificação, na produtividade e na cultura científica, a IA pode ser uma oportunidade extraordinária. Pode ajudar estudantes, professores, investigadores, empresas e serviços públicos. Mas também pode consolidar maus hábitos: superficialidade, dependência, menor exigência intelectual e substituição do pensamento crítico por respostas instantâneas.
A questão, portanto, não é se devemos usar inteligência artificial. Devemos. A questão é se a vamos usar para pensar melhor ou para pensar menos.
A resposta dependerá das instituições, mas também de cada utilizador. Precisamos de escolas que ensinem os alunos a justificar o que escrevem. De universidades que valorizem mais o percurso intelectual do que o produto final. De empresas que não confundam eficiência com abdicação do julgamento humano. De reguladores que compreendam que a segurança da IA não se mede apenas pela precisão dos modelos, mas também pelo efeito que estes produzem nas capacidades das pessoas.
A inteligência artificial deve ser desenhada para criar fricção produtiva. Em vez de oferecer sempre respostas fechadas, deve fazer perguntas, apresentar alternativas, expor incertezas e obrigar o utilizador a tomar posição. Uma boa IA educativa não deve apenas resolver o exercício; deve ajudar o aluno a perceber por que razão uma solução está certa ou errada. Uma boa IA profissional não deve apenas sugerir uma decisão; deve mostrar os pressupostos, riscos e limites dessa decisão.
O futuro não será dividido entre quem usa e quem não usa IA. Essa distinção rapidamente deixará de fazer sentido. O futuro será dividido entre quem sabe dialogar criticamente com a IA e quem apenas obedece às suas respostas.
Aprender a usar inteligência artificial será importante. Mas aprender a discordar dela será essencial.