Mas não foi. Nunca é.
Hoje, em 2025, cá estamos outra vez.
E o padrão repete-se com uma perfeição quase cruel: incêndios gigantes, conferências de imprensa, ministros em mangas de camisa, discursos inflamados, promessas que se dissolvem na primeira chuva de outono.
O que seria lógico — que o PS fosse finalmente responsabilizado pela herança de oito anos de políticas falhadas — não acontece. Pelo contrário. As chamas viraram cortina de fumo. A narrativa escorre para o governo atual, do PSD, que vai sendo queimado em lume brando. Como se a fogueira tivesse sido acesa ontem e não há vinte anos.
A comunicação social tem aqui um papel vergonhoso. Todos os dias repete em coro que este é “o pior ano de sempre”, como se fosse novidade. Esquecem, ou fingem esquecer, os traumas anteriores — em especial o fatídico 2017. Em vez de memória, preferem o espetáculo. Em vez de imparcialidade, alinham numa narrativa de esquerda que manipula o olhar do país. Enganam os portugueses, transformando a tragédia num guião político conveniente.
O PS e os partidos de esquerda aprenderam a arte da inversão. Onde havia culpa, agora há inocência. Onde havia falhanço, agora há oportunidade. E a memória coletiva, cansada e distraída, vai cedendo.
O PSD, por sua vez, não consegue romper o guião. Surge ao lado dos bombeiros, promete reforçar meios, anuncia planos. Mas tudo isso já vimos. Já ouvimos. É o mesmo eco vazio de sempre.
E aqui está o maior embuste: todos sabem que há soluções.
Não são segredo. Estão a ser testadas em diversos países, em diferentes continentes, com resultados concretos. Mas em Portugal prefere-se repetir o ritual gasto, como se fosse uma superstição: fazer sempre o mesmo e esperar resultados diferentes.
É como se estivéssemos condenados a viver entre cinzas e discursos. A cada década, um novo trauma. A cada verão, a mesma impotência. A cada governo, a mesma encenação.
Enquanto Portugal tratar os incêndios como espetáculo mediático, o PS pode até recuperar terreno eleitoral, e o PSD continuará a perder pele em cada chama. Mas o país, esse, perde sempre.
As cinzas que ficam não são de um partido. São de todos nós. E se continuarmos a cair neste truque de narrativa, seremos cúmplices. Não só da política. Mas do incêndio silencioso que consome, ano após ano, o nosso futuro.
E no fim, fica a imagem: um país inteiro a olhar para as chamas, hipnotizado, como quem olha para uma lareira. Há um conforto estranho nesse fogo distante, como se fosse apenas cenário. Mas quando o fumo se dissipa, percebe-se a verdade: não estamos diante da lareira. Estamos dentro dela.
Artigo de Hélder da Rocha Pereira, membro do Grupo de Coordenação Local da Iniciativa Liberal.