
Na minha rua mora um vizinho estranho.
Diz-se de direita, cita a “liberdade individual” a cada frase, mas vive com a alma em permanente Erasmus ideológico: corpo liberal, coração progressista, cabeça cheia de PowerPoints.
É um vizinho trans. Trans-ideológico, trans-identitário, trans-moral.
De manhã é apóstolo do Estado mínimo, à tarde pede mais Estado para corrigir tudo o que o mercado estraga, à noite põe thrash metal com letras marxistas a ecoar pelas paredes, como se fosse obrigatório gritar o desalinhamento com o povo que tem de o ouvir.
Olha para a grande família do 23 — quatro ou cinco filhos, gritos, risos, música popular na cozinha, pétalas de flores nas escadas na Páscoa — e vê um problema. Vê barulho, vê “atraso”, vê “populismo”. O que não vê é que esse barulho é a prova de vida: são ali que nascem a Família, a Religião vivida, a Nação concreta, aquela que não cabe num gráfico, mas enche a rua de cheiro a comida ao domingo.
O meu vizinho trans adora falar de liberdade individual. Liberdade para drogas, eutanásia, ideologia de género — desde que tudo venha certificado por uma qualquer autoridade “racional”. As instituições que seguram a sociedade — Família, Religião, Nação — são para ele, na melhor das hipóteses, folclore; na pior, obstáculos ao indivíduo autónomo que só responde a si mesmo. Mas uma sociedade onde cada um faz “o que quer” sem laços, sem deveres, sem pertença, não dura de pé: a coesão social dissolve-se como casa construída sobre a areia.
E é aqui que o meu vizinho trans se mostra especialmente inepto. Porque não percebe que o seu liberalismo, sem base moral firme, é o melhor pavimento para o socialismo de amanhã: primeiro dissolve as comunidades, as famílias, as pertenças; depois, quando a solidão aperta e o vazio cresce, é inevitável que se peça ao Estado que ocupe o lugar que a Família, a Religião e a Nação deixaram vazio.
Uma sociedade atomizada acaba sempre a bater à porta do Leviatã.
No meio disto, o meu vizinho trans acha-se muito “especial”. Tem uma certa “iniciativa liberal” na forma como se apresenta: moderno, educado, racional… escreve sobre vizinhos barulhentos, condena “abismos”, jura que não se deixa enganar pelo horror da porta ao lado. Mas tem uma moral morna: nem quente na defesa das instituições que dão raízes ao povo, nem frio na recusa coerente do estatismo que diz detestar. Morno na fé, morno na pátria, morno na família. Só é realmente inflamado quando é para usar lugares-comuns na crítica ao barulho do CHEGA, da família, da vida e da nação; aí sobe o tom, não para defender algo sólido, mas para fazer caricaturas do povo tão do agrado da sua bolha.
Entre o vizinho morno, que não cumprimenta ninguém, escuta thrash metal progressista aos gritos e despreza discretamente o povo com quem partilha as escadas, e a grande família barulhenta, que reza, faz filhos, canta alto e enche a casa de vida, sei bem com quem prefiro viver porta com porta.
Se tiver de escolher, fico com o barulho da vida, não com o silêncio higiénico de quem confunde liberdade individual com o direito de serrar, devagarinho, os próprios alicerces da sociedade.


