
Quando era mais jovem, acordar no dia 25 de abril era sempre um desafio: despertar com o som de passos sobre gravilha, bem altos, como se as forças armadas decidissem irromper, imperativamente, pela freguesia de Nogueira, e especificamente no meu quarto. Mas era sempre, felizmente, um falso alarme. De todas as vezes, era “só” a minha Mãe a colocar, de forma bastante audível, para qualquer residente, a “Grândola Vila Morena” de Zeca Afonso. Na altura irritava-me e até desvalorizava. Hoje, sem ela, sou eu que tento replicar esse momento. Uma vez por ano, coloco o volume no máximo, oiço as conhecidas músicas da revolução e vou para a varanda da minha casa respirar, bem fundo, o sabor da liberdade. Recordar-me da sorte que temos em sermos livres. Durante o resto do dia, ligo à minha avó e oiço, feliz, a história que ela já me contou inúmeras vezes como essa manhã foi vivida lá em casa. E tudo que se seguiu depois disso.
Este é o meu 25 de abril. Outros tem a sua forma de o viver, de o exprimir, de o sentir. Quem o viveu, e quem, como eu, viveu-o através da história e das histórias. No entanto, a cada ano, as discussões sobre a revolução – e o consequente fim da ditadura – parecem ter sempre uma variável diferente. Hoje, o tema do momento são os presos políticos entre 1974 e 1975, a ala esquerda do MFA, e os vários revisionismos e revanchismos de quem viveu de forma, à sua maneira, os últimos 50 anos.
Em todas estas discussões, muitas vezes demasiado pessoais para se poderem discutir de forma imparcial, vejo um lado com dificuldades em querer assumir o que aconteceu de errado, e um outro lado a querer aproveitar esses mesmos erros para alegar algo mais profundo, mais sombrio. Presumo que essas duas faces só existam por causa dessa mesma coexistência, mas desgasta (e anula) um debate que poderia ser muito mais interessante discutir do ponto de vista histórico e sociológico.
Porque não, nem tudo correu bem na revolução de 1974 e o que se seguiu depois disso. Houve, de facto, presos políticos. Houve, de facto, uma ala esquerda do MFA com movimentos que de democráticos tinha muito pouco. Houve o PREC. Havia uma figura incontornável do pós-revolução, Álvaro Cunhal, que assumia, sem pudor, não aceitar eventuais resultados das eleições que se seguiam. Houve muitos pontos desta vasta história que não terminam no cravo na ponta das espingardas, e que mesmo com sem a violência típica das revoluções, não significa que a liberdade em todo este processo tenha sido absoluta. Porque não foi.
Admitir isto, sem receios, não deveria trazer tanta convulsão na forma como revemos e entendemos o 25 de abril e tudo que se seguiu a isso. Porque os erros que aconteceram não deve beliscar, de nenhuma forma, a importância de Portugal hoje ser um país livre graças a esse mesmo momento. Uma não invalida a outra, apenas nos ajuda a entendê-la sem a necessidade de branquear qualquer mancha que, inevitavelmente, está à vista.
Admitir o contrário também não deveria trazer, consigo, uma nostalgia ou um saudosismo do passado que nos leve à subtil (mas intencional) conclusão que, no fundo, antes é que era bom, como algumas pessoas tentam fazê-lo. É algo perigoso e deve ser refutado com factos. Porque por mais erros que tenham existido (que existiram), e por mais defeitos que esta democracia tenha (e se tem!), o 25 de abril foi, inegavelmente, o passo mais complicado no nosso caminho para uma democracia plena. E não há nenhuma data (nem mesmo o 25 de novembro) que substitua essa simbologia.
Todavia, mesmo com esta reflexão, sei que as discussões irão continuar, com revisionismos, revanchismos e autoridades morais repartidas numa data que deveria ser (e na prática é) de todos. E sei que, no fundo, se estas discussões acontecem, é porque estamos precisamente num estado democrático, com partidos da esquerda à direita, onde cada um pode defender a ideologia (e as memórias) que pretende. Significa que – voltando ao início – esta data ainda se cumpre. O que significa que, no fundo, devo agradecer por assistir a toda esta convulsão sempre que a data se aproxima. É bom sinal.
Até à próxima discussão (que um dia será apenas de quem a aprendeu, e não de quem a viveu), eu fico-me pela música, voltando aos passos sobre gravilha entoando pela casa. Alguns vizinhos poderão irritar-se, mas sei que a minha Mãe ficaria contente. E eu também.


