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Já dizia a minha Avó

© Fernando Costa

Muito da minha infância foi passada entre quatro paredes da vila de Arcozelo, em Barcelos (Minho), onde a minha avó vivia (e ainda vive, felizmente). Dentro desse acolhedor compartimento, com porções de comida sempre manifestamente exageradas e com panos de croché bordados por cima de quase todos as peças decorativas da casa, a doutrina cristã era omnipresente. Assim como o seu pressuposto deus.

Desde os poderes da oração antes da refeição e/ou da sesta, passando pela importância da fé e de como me comportar na igreja, até ao dia em que a minha Avó mostrava algum desprazer devido a uma hóstia que lhe “caiu mal”, os fundamentos católicos mesclavam-se de forma estranha no processo educativo e moral de uma criança, mas que acabavam por ser mais fáceis de digerir quando era igualmente ensinada a importância de tratar bem o próximo, o respeito pelo outro, ou outros elementos (que diria serem) essenciais para a nossa integração numa sociedade moderna, e para a nossa formação como pessoa. A questão da existência de Deus, curiosamente, nunca foi um grande fator argumentativo da minha Avó.

Os anos foram passando, os panos de croché bordados foram desaparecendo, e as queixas de abusos sexuais na igreja – a tal santidade que até então não poderíamos questionar – foram surgindo nos jornais de forma cada vez mais continuada. Ou, pelo menos, eu já tinha ganhado idade para aceder a elas. Pegando num número redondo, em França, ainda no último ano, foi estimado que terão existido mais de 300 mil vítimas de abusos sexuais na Igreja Católica, num espaço temporal de 70 anos.

Quando questionava a minha Avó sobre estes casos (“como poderia a entidade mais pura do mundo, fazer tão mal a crianças?”) – como se ela se tratasse de um órgão responsável de comunicação do Vaticano – a questão da fé era incessantemente reforçada, numa tentativa algo pesarosa de separar a Igreja de quem nela reside. A certa altura, já notoriamente desgastada com tanta notícia, a minha Avó sugeria que eu não desse tanta atenção aos conhecidos interlocutores da religião católica, mas sim para me deixar conduzir pela dose de fiúza que me incutiu quando era criança. O resto, segundo ela, “já não interessa assim muito. Eles falam demasiado”.

Pegando agora num caso mais próximo, infelizmente – o bispo do Porto, D. Manuel Linda, defendeu (erradamente) que os abusos sexuais na Igreja não são um crime público. De acordo com o mesmo, a Igreja está “interessadíssima em purificar de vez esta realidade que, de facto, há 20 ou 30 anos não imaginávamos que pudesse acontecer e que, afinal, até aconteceu”. E ainda acrescentou: “Não podiam atuar porque não havia fundamento real. Hoje, algumas coisas já sabemos que foram verdade”.

Estas insólitas (para ser simpático) declarações, que vem no seguimento de vários casos de abusos escondidos no seio da Igreja Católica, deveriam ser mais um prego num caixão de um espetro religioso que séculos depois, continua a encobrir-se a ele mesmo na promíscua tentativa de esconder um óbvio padrão de profundos delitos – e com profundas marcas nas vítimas – com uma leviandade que tarda em ser questionada. E que não parece vir a ser questionada tão cedo.

Chegando a tal ponto de desgastante revolta, os diálogos com a minha Avó sobre a fé cristã tornaram-se opacos. Com um misto de vergonha alheia cruzada com a fé que ainda lhe sobra, já desistiu de ir à missa, tenta acompanhar o relato da mesma na rádio (o que eu faço, por vezes, com o futebol, curiosamente) e quase três décadas depois desde a primeira premissa, pede-me apenas para “ser um homem de bem”. O resto, perdeu-se pelo caminho.

A minha última pergunta já não endereço a ela, mas a mim mesmo, já nas minhas quatro paredes: quando é que deixamos também a Igreja pelo caminho, tratando-a como outro elemento qualquer da sociedade? Talvez seja essa a crença que ainda me sobra também.

Artigo de opinião de Fernando Costa, gestor de Comunicação e dirigente da Iniciativa Liberal de Braga.

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