
A explosão do jogo digital em Portugal já não é notícia, a novidade está na cadência sustentada com que as receitas continuam a fixar recordes. Só no último trimestre de 2024, o Serviço de Regulação e Inspeção de Jogos (SRIJ) apurou 323 milhões de euros de receita bruta de jogo online (GGR).
O melhor resultado de sempre e um salto de 42% face ao ano anterior. No cômputo anual, o mercado ultrapassou pela primeira vez a fasquia do milhar de milhão de euros, totalizando 1,07 mil milhões de euros, graças, principalmente, os casinos online e ao regresso em força das apostas desportivas.
A base de utilizadores acompanha o ritmo. Dados da Digital 2025 Portugal indicam que 9,27 milhões de portugueses (89% da população) estavam ligados à internet no início deste ano, enquanto as ligações móveis já equivalem a 135% dos habitantes, reflexo do hábito de possuir mais do que um cartão ou eSIM.
Este mercado digital bem estabelecido sustenta a previsão da consultora iGaming Today, que aponta para um crescimento médio de 2,33% ao ano até 2029, altura em que o volume de negócio do sector poderá rondar os 2,8 mil milhões de euros.
Mercado actual e projecções de crescimento do iGaming português
Desde que o quadro legal foi revisto em 2015, o país conta hoje com trinta licenças activas, distribuídas entre jogos de fortuna ou azar e apostas à cota, algo que reforça a concorrência, mantém a pressão fiscal e legitima novas verticais. Entre estas, o poker Portugal confirma uma recuperação clara.
A partilha de liquidez com Espanha e França fez disparar tanto o tráfego em mesas virtuais como o rake gerado pelas operadoras, colocando Portugal de novo no “radar” dos grandes torneios regionais. O salto de receita no final de 2024 explica-se, em grande parte, pela migração para dispositivos móveis.
Eles já respondem por perto de dois terços das sessões de jogo, impulsionada por velocidades de descarga médias que ultrapassam 79 Mbps no 5G nacional. Mas o alargamento dos métodos de pagamento instantâneos, da PSD2 ao MB Way, que encurta o caminho entre depósito e aposta, reduzindo fricções, também é importante para o sector.
Porém, o que conquista o utilizador é a adopção de soluções de dealer ao vivo nas plataformas líderes, fenómeno que encostou o live casino a uma quota de mercado próxima de 35% do GGR e anima as margens com bloques de apostas mais altos.
Além disso, o volume de jogadores registados em operadores legalmente autorizados atingiu 4,7 milhões no fim de 2024. E mesmo num ambiente fiscal exigente, analistas projectam que o segmento de casino ao vivo continue a ser o motor do crescimento, podendo valer mais de um terço da receita total em 2029.
Impulsionadores e tendências que moldarão o mercado até 2029
O motor mais visível da expansão deste sector continua a ser a mobilidade digital. De acordo com a última edição do Digital 2025 Portugal, existem 14 milhões de ligações móveis activas, o equivalente a 135% da população residente, indicador que reflecte a proliferação de eSIM e de cartões secundários nos pacotes empresariais.
Esta omnipresença do telemóvel alinha-se com a densificação da rede 5G. A ANACOM contabiliza uma estação-base por cada sete quilómetros quadrados no final de 2024, depois de um crescimento anual de 24%.
Quanto mais estável e rápida é a ligação, maior a probabilidade de o utilizador transitar do “scroll” nas redes sociais para uma mesa de blackjack em tempo real, e isso já se nota no mix de receitas. O relatório do SRIJ mostra que os jogos de casino ao vivo subiram oito pontos face a 2022.
A fricção nos pagamentos também encolheu. A revisão da directiva PSD2, aliada ao cap de 0,2% nas comissões das transferências imediatas aprovado em outubro de 2024, tornou virtualmente gratuito o carregamento de saldo através de MB Way ou banca digital, encurtando o intervalo entre a decisão de apostar e o acto de depositar.
No horizonte de médio prazo, consultoras como a Executive Digest antecipam que o segmento de live casino represente mais de um terço da facturação total em 2029, empurrado pela personalização com base em IA e pela integração de elementos de “jogo social”, chats interactivos, missions e passagens de nível que gamificam a experiência.
Contudo, o sector enfrenta os problemas regulatórios e reputacionais de sempre. A actualização dos escalões do Imposto Especial de Jogo Online (IEJO) em 2023 elevou a taxa efectiva para operadores de pequena dimensão, obrigando-os a rever margens e programas de “cashback”.
Num mercado europeu cada vez mais competitivo, se projecta taxas de crescimento anual compostas superiores a 8% para apostas e lotarias até 2029, já que Portugal beneficia de um quadro legal maduro e de custos de aquisição de cliente inferiores aos de mercados nórdicos ou alemães.


