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Dia Internacional da Mulher, difícil seguir em frente quando só se rema de um dos lados

© Filipe Silva

Confesso que durante vários anos menosprezei este dia pois acreditava que minha geração tinha sido responsável por um ponto de viragem em que a igualdade teria sido alcançada, logo, esta celebração já não teria sentido. Não poderia estar mais errado…

Cresci numa típica família em que o Pai trabalhava e a Mãe tomava conta dos filhos e da casa mas, fruto da educação recebida, a igualdade de direitos e obrigações entre homem e mulher foi assimilada desde pequeno.

De tal forma acreditava nisso que no meu primeiro emprego deparei-me com um gestor que evitava contratar mulheres pelas baixas que elas usufruíam pela maternidade e lembro que pensei: “ainda há gente assim?!?”.

Muitos anos mais tarde, já com família em construção percebi que este pensamento continuava, mas de uma forma dissimulada…

Trabalhei numa empresa que se vangloriava de estar na vanguarda da igualdade, onde o Dia da Mulher era celebrado com flores para as funcionárias e claro, com correspondentes posts nas redes sociais. No entanto, uma licença de paternidade ou ausência para tomar conta de um filho doente era encarada com olhares suspeitos por algumas chefias. O mesmo sucedia quando os homens tinham de sair a horas para ir buscar os miúdos à escola, lembro-me de ouvir esta frase do meu superior: “eu sei que tens de sair a horas para ir buscar os miúdos…”, como se isso fosse uma regalia ou uma benesse que me fosse dada, provavelmente pensaria que isso seria função da mulher…

O maior banho de realidade veio mesmo do círculo de pessoas que me rodeia, da geração “com estudos” que eu achava que tinha que tinha feito a mudança de mentalidade. Fruto de conversas e de comportamentos que fui percebendo, a “grande mudança” é que parte dos homens “já” ajudam as mulheres com as crianças e na casa, quase merecedores de uma medalha por fazê-lo.

O cúmulo foi mesmo ouvir que se as mulheres têm igualdade nas tarefas e isto lhes permite ter atividades para além do trabalho/família, é porque lhes damos muita liberdade para tal… Ano 2023 e expressões do antigo regime?!?

Tendo em conta que nós crescemos sendo-nos transmitidos os valores da Igualdade, o que terá falhado? Milhares de palestras, programas de TV/Rádio, artigos publicados e milhões de posts nas redes sociais deveriam ter um maior efeito…

Há desigualdades que são muitos difíceis de ultrapassar como por exemplo a disparidade de vencimentos no desporto entre homens e mulheres pois devem-se à diferença de receitas geradas que é avassaladora. O oposto sucede no campo da moda onde as mulheres recebem muito mais que os homens. Mas, em profissões em que não hajam estas condicionantes externas, deveria haver regulamentação para evitar estas situações? Estão aqui a falhar os responsáveis das empresas?

Desde que me lembro que nas escolas se dedica bastante importância à igualdade, mas muitas vezes esta sensibilização cai em “saco roto”. Há tempos o meu filho mais velho contou-me que na brincadeira um amigo lhe disse que eu não trabalhava pois era eu que levava os miúdos à escola e trabalhava em casa. Dado que há muitos miúdos com realidades semelhantes à dos anos anos 70’/80′, que tal levar pais para a uma aula de cidadania para darem exemplos reais de partilha de tarefas?

Quando falamos em ações sobre Igualdade usualmente lembramo-nos de palestras com mulheres de sucesso a falar sobre seu percurso e como ultrapassaram as contrariedades. Este formato já é realizado há décadas e usualmente no meio dos “machos alfa” são vistos como coisa de mulheres…que tal incluir homens nessas conversas para que o público-alvo também seja o masculino e assim estes participem nesta mudança?

Assim consciencializando ambos lados, tentaríamos minimizar disputas futuras que irão suceder com certeza. Muitas mulheres crescem a promulgar a igualdade mas posteriormente recuam quando se deparam com um chefe, um namorado ou marido com diferentes ideias…

E aqui, na minha humilde opinião, é onde tudo falha…Toda uma vida as mulheres ouviram e “vestiram a camisola da igualdade” mas, após começar uma vida a dois começam os pequenos maus hábitos dos tempos passados em que em casa tudo fazem, só lhes faltando mesmo trazer os chinelos a seus pés.

Quando vêm os filhos, estas transformam-se em autênticos robôs que saem do trabalho e para si deixam todas as tarefas da casa e o cuidar da família.

Este retrocesso ocorre também na vida profissional. Normalmente quando os miúdos ficam doentes e é preciso faltar ao trabalho para deles tomar conta, quem o faz? Mas o trabalho dos homens é mais importante que o das mulheres? Estão a ver o exemplo que se transmite às futuras gerações?

Em vez de celebrar o Dia Internacional da Mulher uma vez por ano, em vez de posts nas redes sociais, façam pequenas mudanças no V/ dia a dia. A igualdade não se atinge a curto prazo mas com pequenas mudanças de comportamento das mulheres e dos homens. Será um percurso muito mais simples se remarem ambos no mesmo sentido.

Não há melhor ensinamento aos mais novos que as vivências que lhes proporcionamos e se estes crescem com estes exemplos de rotinas de partilha, podemos permitir-nos olhar para um futuro onde cada vez menos tenhamos de celebrar este dia como algo a atingir, mas como uma homenagem por todos os que por ele lutaram.

Artigo de opinião de Filipe Silva, informático e membro da Iniciativa Liberal.

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