OpiniãoBraga não pode continuar assim: a cidade que sufoca no próprio trânsito

Braga não pode continuar assim: a cidade que sufoca no próprio trânsito

Artigo de Rui Vilaça.

© Rui Vilaça

Há cidades que crescem. E há cidades que, no meio desse crescimento, se perdem. Braga corre hoje esse risco, não por falta de dinamismo, não por ausência de investimento, mas por algo mais profundo e mais inquietante: a incapacidade de se mover de forma justa, eficiente e humana.

Braga está presa. Presa no trânsito. Presa num modelo ultrapassado. Presa numa ideia de progresso que confunde desenvolvimento com circulação automóvel.

Durante décadas, construiu-se uma cidade à medida do carro. Não foi um acaso, foi uma escolha. Abriram-se vias, multiplicaram-se rotundas, facilitaram-se acessos ao centro, como se o futuro dependesse da fluidez do asfalto. E hoje, ironicamente, é esse mesmo modelo que bloqueia a cidade. O automóvel, outrora símbolo de liberdade, tornou-se o principal fator de imobilidade.

As entradas de Braga são corredores de frustração diária. As horas de ponta deixaram de ser um momento,  são um estado permanente. E no meio desse caos, as estradas degradam-se, os tempos alongam-se, a paciência esgota-se. A cidade que foi pensada para andar depressa tornou-se uma cidade onde tudo demora.

Mas o mais grave não é o trânsito. É a ausência de alternativa.

O transporte público em Braga não falha por detalhe, falha por conceção. Continua preso a um desenho antigo, rígido, incapaz de responder à complexidade da cidade real. Um sistema radial, previsível e limitado, que obriga milhares de pessoas a movimentos absurdos: ir ao centro para depois voltar para fora, perder tempo em transbordos desnecessários, adaptar a vida a horários que não servem ninguém.

É o retrato de um modelo “io-io” que já não faz sentido. Um modelo que ignora aquilo que Braga se tornou: uma rede viva de centralidades, onde as pessoas trabalham, estudam, vivem e circulam em múltiplas direções. E, no entanto, o sistema continua a tratá-las como se todas convergissem para o mesmo ponto.

Isto não é apenas ineficiência. É desigualdade.

Porque quem tem carro escapa, ainda que com custo, stress e tempo perdido. Mas quem não tem, quem depende do transporte coletivo, fica encurralado. Fica dependente de um sistema lento, irregular, insuficiente. Fica com menos acesso, menos tempo, menos cidade. E uma cidade que distribui mobilidade de forma desigual é, inevitavelmente, uma cidade injusta.

Há também uma dimensão que já não pode ser ignorada: a crise climática. Continuar a empurrar pessoas para o automóvel não é apenas um erro urbano,  é uma irresponsabilidade ambiental. Cada fila de trânsito é também um sinal de atraso político, de incapacidade de imaginar um futuro diferente.

E esse futuro tem de ser diferente.

Braga precisa de romper. Não com pequenas medidas, não com ajustes marginais, precisa de uma rutura clara com o modelo que a trouxe até aqui. Precisa de assumir, sem hesitação, que o centro da mobilidade não pode ser o carro, mas sim o coletivo.

Isso exige investimento sério. Exige visão. Exige coragem.

Uma rede de transporte público com frequência elevada, porque esperar não é mobilidade. Com capacidade, porque transporte cheio não é solução. Com lógica circular, porque a cidade não é um ponto, é uma rede. Linhas que liguem periferias entre si, que encurtem distâncias reais, que devolvam tempo às pessoas.

Mas exige também algo mais difícil: mudar prioridades.

Significa retirar espaço ao automóvel para o devolver ao transporte coletivo. Significa aceitar que nem todas as ruas podem servir todos os carros. Significa perceber que o direito à cidade não pode depender da posse de um volante.

Há uma urgência moral nesta discussão.

Porque mobilidade não é apenas deslocação, é acesso à vida. É chegar ao trabalho a horas. É não perder horas em filas intermináveis. É poder viver a cidade sem estar constantemente a lutar contra ela.

Braga está num ponto de viragem. Pode continuar a insistir no erro, a alargar estradas que rapidamente voltam a encher, a adiar decisões difíceis. Ou pode fazer aquilo que tantas cidades já perceberam: que o futuro não se constrói com mais carros, mas com melhores alternativas.

A pergunta já não é técnica. É política. É civilizacional.

Que cidade quer Braga ser?

Uma cidade onde tudo se move, menos as pessoas ou uma cidade onde as pessoas voltam a ser o centro de tudo?

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