
Importa começar pelo princípio, para que ninguém acuse esta crónica de injustiça.
A deslocação da Escola Quinta da Veiga deve-se a obras no edifício original. Obras são necessárias, obras são investimento, obras são futuro. E, por isso mesmo, a comunidade compreende que, durante algum tempo, a escola funcione noutro espaço.
Até aqui, aplauso.
Para esse efeito, foram colocados contentores, sim, contentores com janelas e portas, devidamente transformados em salas de aula provisórias, dentro do espaço da escola rodoviária de Braga. Uma solução transitória, prática, funcional. Ninguém discute a necessidade.
O problema não está nos contentores. Está no que os rodeia.
Porque alguém, sempre esse alguém, essa entidade difusa que toma decisões com aparente imunidade à realidade concreta, decidiu que a entrada principal deveria coincidir com a saída das garagens dos prédios da Rua Quinta de Cabanas.
Repita-se devagar, a saída das garagens transformou-se na antecâmara da escola provisória.
Ora, os moradores já vinham treinados. À noite, convivem estoicamente com o trânsito dos que se deslocam para saborear a sagrada francesinha. Já conhecem o ritual das manobras improváveis, das portas abertas em ângulo duvidoso, das conversas à janela com o motor ligado.
Mas o que era nocturno tornou-se diurno, e multiplicado.
Agora, entre as 8h00 e as 9h00, depois à hora de saída, instala-se a coreografia do “só um minuto”. Pais que parecem convencidos de que o melhor percurso escolar é aquele que termina com o carro praticamente a entrar pela sala de aula adentro. Paragens em segunda fila. Em terceira. Em qualquer fila disponível. Piscas ligados como se fossem salvo-conduto moral.
Entretanto, o morador que tenta sair para trabalhar vê-se aprisionado no próprio prédio. Quinze minutos de espera tornaram-se banalidade. Quinze minutos a observar a sucessão de viaturas em modo urgência parental. Quinze minutos a ponderar se deveria ter saído meia hora antes ou se, porventura, deveria pedir boleia ao próprio filho de alguém.
E quando finalmente ousa buzinar para lembrar que ali existe uma garagem, é brindado com olhares indignados e, não raras vezes, com um repertório verbal pouco pedagógico, ironicamente à porta de uma escola.
É verdade que a solução é provisória. Mas o caos diário também o é? A falta de organização também é temporária? A ausência da presença regular da autoridade municipal nas horas críticas, isso também é parte integrante da “provisoriedade”? (pois nos dias que estiveram até que funcionava, melhor)
Porque provisório não significa improvisado.
Uma solução temporária exige, paradoxalmente, ainda mais cuidado. Exige planeamento fino, comunicação clara com os moradores, delimitação rigorosa de espaços, fiscalização efectiva. Não basta colocar contentores com janelas e portas, é preciso garantir que, do lado de fora, exista civilidade, segurança e fluidez.
A escola merece funcionar com dignidade. Os alunos merecem chegar com tranquilidade. Os pais merecem organizar-se. Mas os moradores também merecem sair de casa sem pedir autorização tácita à fila de carros.
Por isso, a pergunta mantém-se, agora com a devida contextualização das obras e da transitoriedade da medida, quem foi o iluminado que decidiu que a melhor solução provisória passava por converter uma saída de garagens em zona de embarque escolar?
Talvez a intenção tenha sido boa. A execução é que parece ter ficado em obras também.
E enquanto a escola se renova, o que é excelente notícia, talvez valha a pena renovar igualmente o sentido de organização urbana. Porque uma cidade educa não só dentro das salas, mas também na forma como gere as suas ruas.
Até lá, resta aos moradores praticar respiração profunda às oito da manhã. Afinal, entre contentores e francesinhas, a rua quinta de cabanas vai-se tornando um laboratório vivo de paciência cívica.


