OpiniãoMuito mais do que uma festa. As festas que mantêm vivam a...

Muito mais do que uma festa. As festas que mantêm vivam a comunidade.

Artigo de Paula Silva, natural de Dume e residente na União de Freguesias de Real, Dume e Semelhe, membro da Assembleia de Freguesias de Dume entre 2009 e 2013, e membro da Assembleia da União de Freguesias de Real, Dume e Semelhe entre 2013 e 2021.

© Paula Silva

Entre a tradição, a fé e o reencontro, as festas populares continuam a ser um dos maiores factores de coesão das comunidades do Norte de Portugal e o momento em que milhares de emigrantes regressam às suas origens.

Todos os verões repete-se o mesmo milagre.

As ruas ganham outra vida, as varandas vestem-se de cor, os sinos tocam com mais frequência, as bandas filarmónicas voltam a ocupar as praças e o cheiro do churrasco e das farturas anuncia dias diferentes. É o tempo das festas populares.

Há muito que estas celebrações deixaram de ser apenas uma expressão de fé. Sobretudo no Norte de Portugal, representam um dos mais importantes pilares da identidade coletiva, da memória e da vida comunitária. São a prova de que há tradições que resistem ao tempo porque continuam a fazer sentido.

Entre finais de julho e o mês de agosto, aldeias, vilas e cidades transformam-se. Durante alguns dias, o quotidiano abranda. As pessoas encontram-se sem marcar hora, as conversas prolongam-se pela noite dentro e a comunidade volta a reconhecer-se. As ruas enchem-se de cor, as igrejas voltam a receber os seus padroeiros em procissão, as bandas filarmónicas fazem-se ouvir e os largos tornam-se, uma vez mais, o coração da vida comunitária.

É também nesta altura que regressam milhares de emigrantes. Vindos de tantos lugares onde construíram uma vida, fazem questão de marcar as férias para coincidir com as festas da sua terra. Para muitos, este é o momento mais esperado do ano: o verdadeiro regresso a casa.

Não regressam apenas para assistir aos concertos ou às procissões. Regressam para rever familiares, abraçar amigos de infância, visitar vizinhos, recordar quem já partiu e voltar aos lugares que ajudaram a construir a sua identidade. Há abraços adiados durante um ano inteiro. Há crianças que conhecem finalmente a terra dos pais e dos avós. Há memórias que se renovam e outras que passam de geração em geração.

As festas tornam-se, assim, um elo entre quem ficou e quem partiu, mantendo viva uma ligação que o tempo e a distância nunca conseguiram quebrar.

Mas há um valor que vai muito além do cartaz de artistas ou do espectáculo de fogo-de-artifício. O verdadeiro património destas celebrações está nas pessoas. Está no trabalho voluntário de dezenas de homens e mulheres que dedicam meses da sua vida à organização. Está nas colectividades, nas comissões de festas, nos patrocinadores, nas paróquias e em todos aqueles que, muitas vezes de forma silenciosa, garantem que a tradição continua.

É esse trabalho discreto que faz destas festividades um verdadeiro património imaterial. Um património construído por pessoas comuns, movidas apenas pelo orgulho na sua terra e pelo desejo de a ver unida.

Estes festejos são um compromisso entre gerações. Os mais velhos transmitem tradições, os mais novos aprendem a valorizá-las e a comunidade inteira participa na construção de um momento que é de todos. É um esforço feito de dedicação, tempo e espírito de serviço, raramente à procura de reconhecimento, mas sempre movido pelo orgulho na terra.

Num tempo em que tanto se fala de individualismo e de comunidades cada vez mais desligadas umas das outras, as festas da terra provam precisamente o contrário. São momentos de união, de partilha, de reencontro e de pertença. Lembram-nos que uma comunidade não se mede apenas pelo número de habitantes, mas pela capacidade de preservar as suas raízes e de manter vivos os laços entre as pessoas.

Este fim-de-semana, Dume volta a viver esse espírito nas Festas em Honra de São Martinho de Dume. Serão quatro dias de celebração religiosa, cultura, música, convívio e reencontros. Dias em que a freguesia recebe de braços abertos quem nunca, verdadeiramente, partiu e quem percorre centenas ou milhares de quilómetros para voltar às suas origens.

Porque, no fim de contas, é isso que as festas populares representam: a extraordinária capacidade que uma comunidade tem de se reunir em torno daquilo que a une, preservando a sua identidade e transmitindo-a às gerações futuras.

Talvez seja por isso que, numa época marcada pela pressa, pela mobilidade e por relações cada vez mais virtuais, estas celebrações continuem a ter uma força tão singular. Durante alguns dias, devolvem-nos o verdadeiro sentido de comunidade e lembram-nos que pertencemos a um lugar, a uma história e a pessoas que nunca deixam de fazer parte de nós.

Num mundo onde tudo muda à velocidade de um clique, há tradições que continuam a resistir ao tempo. As festas populares são uma delas.

Existem coisas que o tempo nunca conseguirá apagar: a memória, a identidade e o orgulho de chamar Terra ao lugar onde o coração insiste sempre em voltar.

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