
A fotografia ficou perfeita. O sorriso é genuíno. O orgulho é inevitável. Em poucos segundos, escolhemos um filtro, escrevemos uma legenda carinhosa e carregamos em “publicar”. Afinal, é apenas uma fotografia do nosso filho. O que poderá haver de errado nisso? Provavelmente, nada. Ou talvez a pergunta certa seja outra. E se, um dia, esse filho preferisse que aquela fotografia nunca tivesse saído do álbum de família?
Vivemos numa época em que partilhar se tornou quase um reflexo. Já não guardamos apenas memórias; mostramos memórias. Documentamos a infância quase em tempo real, como se cada conquista, cada festa de aniversário, cada momento ternurento ou engraçado precisasse de ser validado por um ecrã. Fazemo-lo por amor. Disso não tenho dúvidas. Mas o amor, por si só, nem sempre responde às perguntas mais difíceis.
Nos últimos anos começou a ganhar expressão um fenómeno a que os especialistas chamam sharenting: a exposição regular da vida dos filhos nas redes sociais pelos próprios pais. O nome pode soar moderno, mas a preocupação é bem real. Tanto que o projeto europeu GUARDIAN, financiado pela União Europeia, está atualmente a estudar as razões que levam os pais a partilhar tanto, a forma como as crianças vivem essa exposição e aquilo que a sociedade pode fazer para proteger melhor os seus direitos. A própria existência deste projeto deveria levar-nos a parar para pensar. Durante muito tempo olhámos para estas partilhas como um gesto inofensivo, quase automático. Hoje sabemos que a questão é muito mais profunda. Já não falamos apenas de fotografias. Falamos de privacidade. Falamos de identidade digital. Falamos de direitos.
A verdade é que nunca houve uma geração de crianças cuja história começasse a ser escrita online antes mesmo de aprenderem a escrever o próprio nome. Há bebés que já têm centenas de fotografias na Internet antes de darem os primeiros passos. Crianças cuja rotina, escola, hobbies, amigos e até momentos de maior vulnerabilidade ficam disponíveis para um universo de pessoas que os pais dificilmente conseguem controlar. E tudo isto acontece, quase sempre, com a melhor das intenções.
Mas será que, no meio da rapidez com que publicamos, paramos verdadeiramente para pensar na perspetiva da criança? Se pudesse escolher, gostaria de ver aquele vídeo da birra que fez aos quatro anos a circular nas redes sociais? Gostaria que a fotografia do primeiro banho, da fantasia de Carnaval ou daquele momento particularmente embaraçoso continuasse acessível quando tiver quinze, vinte ou trinta anos? São perguntas incómodas. E talvez por isso sejam tão importantes.
Costuma dizer-se que a Internet não esquece. Mas esquecemo-nos, muitas vezes, de que as crianças também não. Crescem. Descobrem quem são. Constroem a sua identidade. E merecem ter o direito de decidir que imagem querem apresentar ao mundo.
As crianças não são uma extensão da identidade digital dos pais. São pessoas, titulares de direitos próprios, entre eles o direito à privacidade, à imagem e à construção da sua personalidade. Direitos que não surgem apenas quando atingem a maioridade. Acompanham-nas desde o primeiro dia de vida.
Naturalmente, ninguém defende que os pais deixem de fotografar os filhos ou de celebrar os momentos felizes. O problema nunca foi uma fotografia de família ou uma partilha ocasional. O problema começa quando deixamos de distinguir aquilo que queremos guardar daquilo que sentimos necessidade de mostrar. Quando a fronteira entre preservar uma memória e expor uma infância se torna cada vez mais ténue.
Talvez a verdadeira questão já não seja: “Posso publicar?” Talvez seja: “Estou a publicar por eles… ou por mim?”
Vivemos num tempo em que discutimos inteligência artificial, algoritmos, proteção de dados e cibersegurança. Mas esquecemo-nos, por vezes, de um princípio muito mais simples: proteger uma criança também significa saber quando não a expor.
Nem todas as memórias precisam de ser públicas para terem valor. Algumas tornam-se, precisamente, mais especiais porque permanecem onde sempre fizeram sentido: na intimidade da família.
Porque a infância passa depressa. As fotografias ficam. Mas o direito de cada criança construir a sua própria história — e decidir o que quer ou não mostrar ao mundo — esse deve permanecer sempre nas suas mãos.


