
A notícia, avançada recentemente pelo Financial Times, tem o peso de um terramoto silencioso, mas de consequências sísmicas: pela primeira vez na história, a China exportou mais de um milhão de automóveis num único mês. Não estamos a falar de uma anomalia estatística, de um pico sazonal ou de uma simples manobra de escoamento de inventário. Estamos perante a consolidação de uma nova e inquestionável hegemonia industrial. Enquanto Pequim celebra este marco histórico, que impulsiona o seu superávit comercial e reafirma o seu estatuto de fábrica do mundo, Bruxelas e as capitais europeias continuam atoladas em debates intermináveis, paralisadas por uma burocracia asfixiante sobre como travar o inevitável.
O erro crasso de muitos analistas e políticos ocidentais foi, durante anos, subestimar a sofisticação e a velocidade desta ofensiva. Já não se trata de veículos de baixo custo ou meras imitações desenhadas para mercados emergentes. Mais de metade destas exportações são Veículos de Nova Energia, incluindo elétricos e híbridos de alta tecnologia. A China não está apenas a exportar metal, plástico e borracha; está a exportar a próxima geração de mobilidade global. O seu mercado interno serviu de laboratório implacável, permitindo que gigantes como a BYD dominassem a química das baterias, o software de bordo e as cadeias de suprimentos críticas. O seu sucesso não é um mero acidente de planeamento central, mas o resultado de um alinhamento preciso entre a sua capacidade produtiva e a demanda global por uma transição energética real e acessível.
Perante este tsunami, a reação instintiva de Washington e Bruxelas foi erguer muros. As tarifas punitivas impostas pelos Estados Unidos e as sobretaxas em curso na União Europeia são a prova cabal de que o livre mercado, tão apregoado pelo Ocidente em tempos de bonança, desaparece convenientemente quando a concorrência se torna verdadeiramente incómoda. É legítimo e necessário apontar o dedo aos massivos subsídios estatais chineses, que distorcem as regras do jogo. Contudo, o protecionismo é um analgésico perigoso, não uma cura. Transformar a Europa numa fortaleza tarifária não tornará os nossos automóveis mais competitivos; apenas os tornará mais caros para os cidadãos e empresas europeias, enquanto adiamos a inevitável e dolorosa reestruturação do nosso tecido industrial. As nossas marcas históricas, como a Volkswagen ou a Stellantis, lutam para se reinventar sob o peso de regulações ambientais complexas e custos de energia proibitivos, enquanto os concorrentes asiáticos avançam a passos largos.
Além disso, ao focarmo-nos obsessivamente no nosso mercado interno, esquecemos que a China está a conquistar o Sul Global. Pequim não está apenas a enviar navios para a Europa; está a construir fábricas no Brasil, no México, no Sudeste Asiático e em África, contornando facilmente as barreiras ocidentais e tornando as suas marcas sinónimo de aspiração e modernidade em mercados emergentes.
O recorde de um milhão de exportações mensais é um aviso à navegação que a Europa não tem o luxo de ignorar. A indústria automóvel, tradicionalmente o motor da economia alemã e de todo o bloco comunitário, está a ser reconfigurada por players que jogam noutra velocidade. Em vez de gastarmos a nossa energia política a desenhar barreiras alfandegárias, deveríamos estar a desburocratizar a nossa economia, a investir agressivamente na inovação e a criar um mercado único de energia que seja competitivamente viável. A China venceu a corrida da eletrificação porque correu; a Europa só conseguirá recuperar o tempo perdido se deixar de olhar para o retrovisor e começar a acelerar. O mundo não vai esperar por nós.


