
Portugal é um país estranho.
Portugal é um país que se indigna com números, mas que esquece pessoas. Um país que mobiliza políticos, comentadores, jornalistas, advogados, economistas e recursos públicos quando estão em causa milhões de euros, mas que permanece surpreendentemente silencioso quando estão em causa vidas humanas destruídas.
Passaram mais de dez anos desde a queda do Banco Espírito Santo.
- Mais de dez anos de debates parlamentares.
- Mais de dez anos de investigações.
- Mais de dez anos de acusações políticas.
- Mais de dez anos de aproveitamento partidário.
- Mais de dez anos de discursos inflamados sobre responsabilidades e prejuízos.
E, no entanto, continua a existir uma pergunta à qual ninguém parece querer responder:
- Quem se preocupou verdadeiramente com os milhares de trabalhadores do BES? Quem?
- O Partido Socialista?
- O Partido Social Democrata?
- O CDS?
- O Bloco de Esquerda?
- O Partido Comunista?
- O Chega?
- A Iniciativa Liberal?
Quem levantou verdadeiramente a voz pelos homens e mulheres que, sem terem cometido qualquer erro, viram as suas vidas destruídas?
A resposta é tão incómoda quanto evidente. “Praticamente ninguém.”
Ao longo de uma década, os portugueses assistiram a um espetáculo político deprimente:
- Uns culpavam os outros.
- Uns apontavam o dedo aos governos anteriores.
- Outros apontavam o dedo aos governos seguintes.
- Uns falavam de supervisão.
- Outros falavam de resolução.
- Uns falavam de responsabilidades políticas.
- Outros falavam de responsabilidades judiciais.
Mas quase ninguém falou dos trabalhadores. Os esquecidos. Os invisíveis.
Os descartáveis.
Os milhares de homens e mulheres que todos os dias abriram as portas das agências, atenderam clientes, concederam crédito, geriram empresas, acompanharam famílias e ajudaram a construir uma das maiores instituições financeiras portuguesas. Pessoas que acreditavam estar a construir uma carreira, que acreditavam estar a construir um futuro, que acreditavam que o mérito, a dedicação e a lealdade seriam recompensados.
Mas descobriram da forma mais cruel possível que, quando o sistema colapsa, os primeiros a serem sacrificados são quase sempre os que menos culpa têm.
Nenhum daqueles trabalhadores participou nas decisões que conduziram à queda do BES, nenhum deles desenhou estruturas financeiras complexas, aprovou estratégias ruinosas, beneficiou dos erros que levaram ao colapso. Mas foram eles que pagaram uma das faturas mais pesadas.
Milhares perderam o emprego, perderam a estabilidade financeira, projetos de vida, anos de carreira, a confiança nas instituições. E muitos perderam algo ainda mais importante, a dignidade.
Porque há uma violência silenciosa que raramente aparece nos jornais. É a violência de um homem com cinquenta anos que regressa a casa sem saber como irá sustentar a família.
É a violência de uma mulher que dedicou trinta anos da sua vida a uma instituição e que, de repente, descobre que o mercado de trabalho já não tem lugar para ela.
É a violência de quem trabalhou honestamente durante décadas e se vê tratado como um custo a eliminar.
Mas se a queda do BES foi uma tragédia financeira, a forma como muitos trabalhadores foram tratados nos anos seguintes constitui uma tragédia moral.
Durante décadas foram chamados colaboradores, depois passaram a ser números.
Durante décadas foram valorizados, depois passaram a ser custos.
Durante décadas ouviram discursos sobre espírito de equipa, compromisso e pertença, depois foram confrontados com a frieza dos processos de reestruturação, das folhas de Excel e dos relatórios financeiros.
Para muitos, a sensação foi devastadora, sentiram-se descartados, abandonados,esquecidos,traídos. Mas talvez ainda mais grave tenha sido o silêncio do Estado.
Um Estado que todos os meses cobra impostos aos trabalhadores, que todos os meses recebe contribuições para a Segurança Social, que se apresenta como protetor dos cidadãos, mas que, perante uma das maiores crises laborais da história recente do setor financeiro português, demonstrou uma incapacidade assustadora para proteger aqueles que mais precisavam.
- Onde estavam os programas especiais de reconversão profissional?
- Onde estavam as medidas específicas para trabalhadores com mais de cinquenta anos?
- Onde estavam os mecanismos de apoio psicológico?
- Onde estavam as políticas públicas dirigidas às famílias afetadas?
- Onde estavam os governantes que hoje falam tanto de justiça social?
A verdade é dura, estavam ocupados a discutir números, porque em Portugal parece ser mais fácil salvar instituições do que salvar pessoas, mais fácil salvar bancos do que salvar trabalhadores, mais fácil proteger estruturas do que proteger vidas.
E esta crítica não tem cor partidária, porque a responsabilidade distribui-se por quase todo o arco político que governou Portugal ao longo destas décadas.
Mudaram os governos, os ministros, os discursos, as maiorias parlamentares. Mas os trabalhadores continuaram esquecidos.
E também importa falar de outro silêncio, o de muitas estruturas que vivem da representação dos trabalhadores.
Muitos antigos colaboradores do BES sentiram que a força, a indignação e a mobilização nunca estiveram à altura da dimensão da tragédia humana que se vivia. Sentiram que os seus dramas não geraram a mesma atenção que outras causas, que as suas histórias nunca chegaram verdadeiramente ao centro do debate nacional, que foram deixados para trás.
E talvez tenham razão.
Porque passados mais de dez anos, os portugueses sabem os nomes de administradores, os nomes de políticos, os nomes de reguladores. Mas não conhecem o nome de um único trabalhador que tenha perdido tudo.
E isso diz muito sobre aquilo em que nos transformámos enquanto sociedade.
Transformámo-nos num país onde os poderosos têm rosto e as vítimas são estatísticas.
Mas há uma verdade que importa recordar, os trabalhadores do BES não eram números, eram pessoas, pais, mães, filhos, profissionais competentes, contribuintes, cidadãos. Pessoas que fizeram tudo aquilo que a sociedade lhes pediu. Trabalharam, descontaram, cumpriram as regras, acreditaram no sistema e quando o sistema falhou, ficaram sozinhos.
Talvez tenha chegado a altura de os portugueses refletirem sobre isto. Porque a queda do BES não revela apenas o fracasso de uma instituição financeira, revela algo muito mais grave, revela o fracasso de um país que continua a proteger melhor o poder do que as pessoas. Revela o fracasso de uma classe política que se especializou em discutir responsabilidades sem assumir responsabilidades. Revela o fracasso de instituições que existem para servir os cidadãos, mas que demasiadas vezes servem apenas a sua própria sobrevivência.
E revela, acima de tudo, uma verdade profundamente incómoda:
- Num país onde tantos falam em justiça, os verdadeiros lesados do BES continuam sem reconhecimento, sem voz e sem reparação.
E enquanto Portugal não tiver a coragem de olhar para estes trabalhadores e reconhecer a injustiça que lhes foi feita, continuará a existir uma dívida moral que nenhuma comissão parlamentar, nenhum tribunal e nenhum governo conseguirá apagar.
Porque os verdadeiros lesados do BES não foram apenas aqueles que perderam dinheiro.
Foram aqueles que perderam uma vida inteira, e esses continuam, ainda hoje, à espera que alguém os veja.


