OpiniãoConversar sobre Política

Conversar sobre Política

Artigo de Fernando Costa, deputado municipal em Braga pela Iniciativa Liberal.

© Fernando Costa

Imagine, caro leitor, que duas pessoas tem o mesmo objetivo: chegar a um determinado destino (vamos dizer Lisboa, para simplificar). No entanto, partindo do mesmo local, ambos divergem na forma como podem ou devem chegar lá. Uma acha que é preferível ir pela autoestrada, a outra pessoa acha que é mais vantajoso ir pela estrada nacional. Fazia sentido que, mesmo com visões diferentes, estas pessoas não conseguissem discutir sobre isto, considerando que o objetivo de ambos é o mesmo?

Agora passemos este cenário para a discussão política. Claro que falar de ideologias e de políticas é muito mais complexo do que discutir vias rodoviárias, até porque elas implicam uma forma comum de chegar a determinado objetivo, enquanto que, nas estradas, cada um escolhe para onde quer ir, sem limitar a liberdade do outro (em princípio). Ainda assim, não deixa de ser surpreendente que não queiramos – ou não consigamos – dialogar sobre um assunto com determinada pessoa, quando o objetivo é (quase sempre) mútuo: termos um mundo mais próspero e com mais qualidade de vida para todos.

Olhando para tempos mais recentes, sentado à mesa com amigos ou familiares, quantas vezes decidiu que não falava mais de política, para não se irritar demasiado, ou para evitar zangas maiores? Quantas vezes não ouviu o desabafo de alguém cortar relações com outra pessoa por causa dessas mesmas discussões? Infelizmente, creio que nenhum destes casos são inéditos. Poderei cair em algum exagero, mas não deixa de ser curioso em pensar que há cinquenta anos não se falava de política à mesa, porque não se podia, para agora não se falar de política à mesa, porque não se quer.

Claro que a polarização das redes sociais contribui bastante para este fator. Hoje, cada pessoa tem o seu próprio fluxo de informação, as suas próprias fontes, o que resulta na criação das suas próprias verdades. A moderação hoje não é sexy, nem tão pouco dá likes. Quem capta multidões é quem cria um abismo entre a sua visão, que está infinitamente correta, e o resto do mundo, que está cabalmente errado. Hoje temos tribos que nos seguem, em contraponto com os contraditórios que se extinguem.

Mesmo numa reflexão mais pessoal, e sem qualquer intenção de autoelogio disfarçado, creio que não me adapto inteiramente a estes tempos, mesmo sendo relativamente jovem. Porque vivo cheio de dúvidas e questionando sempre aquilo em que acredito. Sinto-me em luta constante com as minhas próprias crenças (na esperança de conseguir melhores respostas) e confesso que, por vezes, invejo estas novas personalidades instagrammáveis cheias de certezas inabaláveis. Entre quem é mais cativante, não tenho hesitações em escolhê-los.

No meio deste processo, a forma como vemos o outro lado do nosso espetro ideológico também se vai alterando. Aquilo não concordamos, na maioria das vezes, transformou-se em terrorismo político. Quem está do outro lado são fascistas ou são wokes. Por vezes ambos. O algoritmo anseia em mostrar-nos o quão distantes estamos de quem discordamos. E adora mostrar-nos o quão gostamos de pensar que só nós é que estamos corretos.

Como se combate isto, portanto? E até que ponto isto se transporta para as conversas que temos à mesa, com as pessoas que mais gostamos? Até que ponto estamos a desculpá-las com o que elas vêm no telemóvel? Devemos exigir mais consciência crítica? Será que realmente hoje há uma maior intolerância ao contraditório, ou é outra falsa realidade que o algoritmo nos quer fazer passar? Até que ponto é que o mundo político não segue crescentemente esta tendência, esvaziando o meio-termo e o ponto de concordância que é absolutamente necessário entre diferentes partidos numa democracia saudável?

Depois de tantas dúvidas (lá está), gostava mesmo de terminar este texto com uma resposta, para compensar o leitor, de certa forma, o tempo que dispensou até agora. Mas não tenho. Nem sequer uma recomendação. Partilho apenas que, muito provavelmente, manterei o princípio, meio naive, que se não formos arrogantes com a nossa visão, conseguiremos ultrapassar, lentamente, as barreiras que estão visíveis do outro lado. Manterei a esperança que se formos os primeiros a demonstrar as falhas que temos nas nossas próprias crenças, outros poderão abandonar a necessidade de serem tão defensivos nas suas respostas. Porque acredito – e quero continuar a acreditar, por uma questão de sanidade – que só a parte humana poderá, um dia, rasgar as vestes que os ecrãs nos dão.

Se isto irá resultar muitas vezes, numa conversa em que fui “ESMAGADO”, escrito em letras maiúsculas no YouTube? É provável que sim. Quando isso acontecer, voltarei a falar de estradas.

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