PaísDoente em fase terminal deitada no chão das urgências por falta de...

Doente em fase terminal deitada no chão das urgências por falta de macas

Filho da doente oncológica conta que a mãe tem um cancro generalizado na zona abdominal e teve de ser o próprio a transportar a mãe ao hospital por "não haver ambulâncias disponíveis".

DR

Uma doente oncológica em fase terminal teve de ficar no chão das urgências do Hospital de Coimbra por falta de macas, na quinta-feira. O relato foi feito pelo filho da utente.

Segundo João Gaspar, as dores da mãe eram “insuportáveis”. “Vi a minha mãe, doente oncológica em fase terminal, deitada no chão de um hospital português. A minha mãe tem um cancro generalizado na zona abdominal. Faz quimioterapia, vive com dores constantes, tem bolsa de urina e saco para as fezes. Não consegue andar sozinha nem permanecer sentada por muito tempo. Ainda assim, ontem foi tratada como se fosse apenas mais um corpo à espera. As dores eram insuportáveis”, disse.

O filho da utente afirma ter ligado para a Saúde 24, mas “ninguém atendeu”. “Liguei para o 112, disseram que iam enviar uma ambulância. Vinte minutos depois voltaram a ligar para dizer que não havia ambulâncias disponíveis e que teríamos de aguardar por tempo indeterminado. Tempo indeterminado quando uma pessoa grita de dores. Não tivemos alternativa. Colocámos a minha mãe no carro para a levar às urgências. Avisei que estava a chegar com uma doente grave, antecipando o problema que é chegar à entrada das urgências com um carro particular. Disseram-me apenas para falar com a polícia à entrada. Chegámos com a minha mãe deitada no banco de trás do carro, porque não conseguia sentar-se. Não havia macas disponíveis. Disseram-nos para usar uma cadeira de rodas. Ela não aguentava. Pedi uma maca. Disseram-me que teria de ser eu a ir buscar. Não havia”, refere João Gaspar.

O filho, juntamente com outro familiar, foram obrigados a transportar a doente para dentro do hospital. “Numa sala cheia de profissionais, ninguém tinha uma solução. A minha mãe gritava de dores. Ouvi dizer que ‘todos ali estavam mal’, como se a dor fosse igual, como se o sofrimento fosse indiferenciado. Sem maca e sem alternativa, deitámos a minha mãe no chão, sobre uma manta trazida por nós. No chão de um hospital, em 2026. Houve quem criticasse a decisão, não para ajudar, mas para apontar o dedo”, lamenta.

João Gaspar conta após aperceberem-se que a situação estaria a ser registada em imagem é que “alguém começou a agir”.” Depois disso, tudo aconteceu como devia ter acontecido desde o início. Foi-lhe administrada morfina, duas vezes. Recebeu soro. Foram feitos exames. Os meios existiam”, afirma, apontando que “faltou foi humanidade”.

“Neste mesmo período, pessoas morreram em Portugal à espera de ambulância. Vivemos um momento em que a falta de organização empurra famílias para decisões impossíveis e transforma hospitais em locais de sobrevivência emocional. Esta carta não é contra profissionais de saúde. É contra um sistema que permite que uma doente oncológica terminal fique no chão”, finalizou João Gaspar.

PARTILHE A NOTÍCIA

LEIA TAMBÉM

PUBLICIDADE

Últimas Notícias

POPULARES