
A hipótese de realizar transações em Bitcoin entre a Terra e Marte deixou o domínio da ficção científica para ganhar contornos técnicos concretos. Um estudo académico publicado em agosto de 2025 propõe o Proof-of-Transit Timestamping (PoTT), um mecanismo que cria trilhos de auditoria criptográficos para dados do Bitcoin em ligações de alta latência.
Isso, além de conectividade intermitente, exatamente o cenário das comunicações interplanetárias. A proposta descreve como combinar redes tolerantes a atrasos (DTN), replicação “header-first” do blockchain (SPV) e liquidações locais em cadeias federadas ou commit chains sem alterar o consenso do Bitcoin na Terra.
O que muda com o PoTT e porque isso interessa a Portugal
O PoTT aborda três problemas clássicos do “Terra–Marte”, os atrasos de sinal que variam de minutos, as janelas de comunicação irregulares e a limitada potência de transmissão. Em vez de exigir validação constante com a rede terrestre, a solução replica localmente os cabeçalhos de blocos para verificação simplificada de pagamentos (SPV).
Também regista, com carimbos temporais, cada salto que um pacote de dados executa pela malha espacial. Assim, uma estação em Marte poderia aceitar pagamentos de forma auditável, reconciliando a liquidação com a base monetária do Bitcoin na Terra quando a janela de comunicação o permitir.
Os autores sublinham que o L1 do Bitcoin permanece inalterado, preservando a sua política monetária e regras de consenso, enquanto as liquidações locais ocorreriam numa federação forte ou commit chain com paridade 1:1 de ativos, consoante a maturidade tecnológica.
Para os portugueses, o tema cruza-se com dois acontecimentos recentes. Por um lado, a aceleração do setor espacial nacional, com o arquipélago dos Açores a posicionar-se como plataforma de acesso ao espaço.
Por outro, a implementação do MiCA e a clarificação das regras aplicáveis a serviços com criptoativos em Portugal, o que molda o enquadramento de qualquer inovação séria neste domínio.
Em agosto, a Agência Espacial Portuguesa anunciou a primeira licença para operação de um porto espacial em Santa Maria, projeto do Atlantic Spaceport Consortium, concretizado através de decisão regulatória publicada no Diário da República.
O interesse por pagamentos digitais com cripto tem crescido também em diversas outras áreas, incluindo no entretenimento online. Além de compras e contratação de serviços, cada vez mais é possível utilizar criptomoedas no dia a dia. Até os melhores cripto casinos em Portugal estão na mira dos utilizadores.
Com as regras do setor cripto, além do anonimato e segurança já esperado pela blockchain, está a conformidade proporcionada pelos reguladores. E é esta mesma lógica de due diligence é a que sustenta o PoTT, reduzindo assimetrias de informação e assegurar rastreabilidade sob latência extrema.
Há precedentes no espaço: Satélites e a ISS já falaram Bitcoin
A ideia não parte do zero. Desde 2017, a Blockstream Satellite difunde o blockchain do Bitcoin por satélite, garantindo redundância de rede em regiões com conectividade limitada e resiliência a interrupções terrestres.
Além disso, a SpaceChain realizou em 2020 uma transação multi-assinatura em BTC a partir de hardware instalado na Estação Espacial Internacional (ISS), demonstrando que operações relacionadas com Bitcoin podem ser autorizadas “fora” da Terra.
Estes casos não resolvem, por si, o fosso Terra-Marte, mas mostram que a infraestrutura orbital pode participar na propagação e segurança de dados críticos para a rede. E mais recentemente, a ponte simbólica entre cripto e espaço ganhou visibilidade comercial.
A Blue Origin passou a aceitar Bitcoin, Ether, Solana e stablecoins para compra de voos suborbitais, através da Shift4, legitimando pagamentos cripto em experiências ligadas ao turismo espacial. É um passo ainda deste lado da órbita, mas aponta para normalização de meios de pagamento digitais em atividades aeroespaciais.
Portugal no mapa: Santa Maria, conectividade e “última milha”
Portugal enviou ao mercado dois sinais importantes em 2025. O primeiro foi o licenciamento do porto espacial em Santa Maria (Malbusca), válido por cinco anos, colocando os Açores no radar europeu de acesso e retorno de missões.
O segundo foi a continuação da implementação do MiCA, com o Banco de Portugal a precisar que, desde dezembro de 2024, a prestação de serviços com criptoativos na UE depende de autorização da autoridade nacional competente. E com trabalhos legislativos no Parlamento para clarificar a partilha de competências entre BdP e CMVM na supervisão.
Para um ecossistema que ambiciona testar tecnologias como o PoTT em ligações de alto risco operacional, a robustez regulatória doméstica é um trunfo. A disseminação de constelações LEO também ajuda a compreender como a latência desce e a resiliência sobe.
Em Portugal, o serviço Starlink está disponível e tem sido comparado pela DECO PROTeste. Tecnologias que reduzem latência e diversificam caminhos de transmissão (como LEO) são as mesmas que, numa versão extrapolada, poderão sustentar ligações Terra-Marte nas “pontes” de ida e volta do PoTT.
Os desafios técnicos que o PoTT pretende mitigar
As latências Terra-Marte variam com as órbitas, os alinhamentos e as chamadas solar conjunctions (que interrompem comunicações), impondo janelas de transmissão e um modelo store-and-forward. Em ambientes assim, tentar usar a full node tradicional é impraticável, faltam largura de banda, tempo e energia.
O PoTT substitui sincronizações totais por provas de trânsito com carimbo temporal, em que cada “salto”, antena terrestre, satélite, retransmissor, acrescenta prova criptográfica do caminho.
Em Marte, SPV e watchtowers locais permitem aceitar pagamentos com segurança suficiente para a atividade corrente, enquanto a liquidação final aguarda uma janela Terra-Marte. Não há novo Bitcoin marciano, mas há, sim, segregação operacional com reconciliação à camada monetária original.
Embora o PoTT seja uma proposta académica, a combinação de redundância por satélite, experimentos prévios (ISS) e normalização de pagamentos cripto em serviços aeroespaciais aponta cenários plausíveis de curto e médio prazo.


