
Cem dias não fazem um mandato. Mas dizem muito sobre o seu rumo. São suficientes para perceber se existe visão estratégica ou apenas gestão corrente; se há vontade de reformar ou apenas de comunicar.
O Executivo liderado por João Rodrigues apresentou um balanço entusiástico destes primeiros cem dias, proclamando um “novo ciclo político” assente em decisão e capacidade de concretização. A narrativa é ambiciosa. A realidade recomenda maior sobriedade.
Comecemos pelo Plano Director Municipal. A sua aprovação é relevante — ninguém o contesta. Mas convém recordar que foram longos e demasiados anos de revisão. Um processo que se arrastou no tempo, criando incerteza para famílias, investidores e para o próprio planeamento do território. Celebrar agora a conclusão de um dossier excessivamente prolongado não apaga a responsabilidade política pelo atraso acumulado. Mais do que festejar o fim, importa refletir sobre por que demorou tanto.
O alegado reforço de 1.500 hectares de solo urbano exige, além disso, responsabilidade acrescida. Crescer não é apenas expandir perímetros; é garantir infra-estruturas, serviços, mobilidade e sustentabilidade financeira. Sem execução rigorosa e planeamento integrado, a ambição urbanística pode transformar-se em pressão desordenada sobre o território.
Também o maior Orçamento Municipal de sempre (285 milhões de euros) é apresentado como prova de ambição. Mas os orçamentos crescem por efeito da inflação e da expansão da despesa. O que distingue um orçamento reformista não é o seu volume nominal, mas a sua capacidade de gerar eficiência, medir resultados e introduzir reformas estruturais.
Na mobilidade, a anulação ou suspensão do projecto BRT foi apresentada como decisão estruturante. Cancelar não é governar; governar é apresentar alternativa clara, com modelo definido, financiamento assegurado e calendário transparente.
Quanto à redução de 14% nos passes dos Transportes Urbanos de Braga, a Iniciativa Liberal tem sido coerente na defesa de que a gratuitidade generalizada do transporte público não é solução sustentável. Descapitalizar os TUB pode comprometer a sua autonomia financeira e, no limite, colocar em causa os rácios mínimos de autofinanciamento legalmente exigidos às empresas municipais. Políticas públicas responsáveis devem assegurar equilíbrio económico, sob pena de criar problemas estruturais no médio prazo.
Quanto às grandes infra-estruturas, tais como a Variante do Cávado e do Este, impõe-se prudência. O financiamento depende do Governo da República. Num contexto em que o país enfrenta uma situação de calamidade com impacto orçamental relevante, é legítimo questionar se os compromissos plurianuais permanecem blindados. Existem garantias formais? Estão os contratos plenamente assegurados? Prudência não é pessimismo; é responsabilidade.
Na educação, na segurança e na requalificação urbana acumulam-se anúncios de verbas. Fica por demonstrar o grau de execução efectiva e os prazos concretos de concretização.
Falar de “novo ciclo” implica mudança de paradigma: simplificação administrativa, reforço da transparência na contratação pública, competitividade fiscal estrutural e avaliação séria das políticas municipais. Até ao momento, esses sinais não são evidentes.
Os primeiros cem dias revelam sobretudo continuidade administrativa com forte componente comunicacional. Não há ainda reformas estruturais inequívocas que justifiquem a narrativa de ruptura.
Braga merece ambição com responsabilidade. Merece planeamento atempado, contas equilibradas e políticas sustentáveis. Cem dias são apenas o início — mas são também um teste à coerência entre discurso e realidade. E, por agora, o que se vê é mais proclamação do que transformação. Demasiada comunicação. E demasiada solidão estratégica.


