OpiniãoO Brumário do Coelho

O Brumário do Coelho

Artigo de José Ferraz, eleito pela CDU – Coligação Democrática Unitária, à Assembleia da União de Freguesias de Nogueiró e Tenões, em Braga.

DR

A 28 de Maio de 1926, fez ontem cem anos, Gomes da Costa partia de Braga para liderar o golpe militar que derrubou a I República, num contexto de instabilidade política crónica e de crise económica e social agravada pelo medo das classes dominantes face à contestação e aos caminhos de emancipação que pelo mundo se abriam para os trabalhadores.

Como Marx observou no “18 de Brumário de Luís Bonaparte”, de 1852, quando um regime deixa de conseguir gerir as contradições que ele próprio origina, as classes dominantes tendem a convocar um “homem providencial” que concentre autoridade, restaure a “ordem” e desvie a contestação social das suas causas estruturais para o plano das culpas individuais e dos inimigos de conveniência.

Marx partia da máxima hegeliana de que os factos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem por duas vezes, acrescentando-lhe um outro elemento essencial: que isso acontece primeiro como tragédia e depois como farsa.

O 28 de Maio foi assim a tragédia que permitiu a instalação de quase meio século de ditadura fascista, o autodenominado “Estado Novo”.

Cem anos depois do dia 28 de Maio de 1926, o reaparecimento cada vez mais forçado de Passos Coelho na vida pública, à boleia do bobo-espantalho Ventura que o próprio Passos e o seu partido pariram, ameaça fazer a farsa cumprir-se em todo o seu esplendor.

Na verdade, à medida que o estado de graça de Montenegro se esfuma, ao ritmo das facadas dos companheiros de partido e da inevitável degradação que o radicalismo neoliberal da sua governação originou em termos sociais, o sistema reabre espaço para o antigo primeiro-ministro, agora cada vez mais posicionado como o salvador da pátria e a reserva moral da “nação valente e imortal”, o único que poderá “salvar-nos” tanto da notória inabilidade comunicacional e estética de Montenegro como do estilo bacoco e trauliteiro do seu discípulo Ventura. ( julgo ser essa a única coisa que verdadeiramente desagrada em Ventura aos fãs de Passos).

Mas o que não podemos ignorar é que é exactamente o mesmo sistema que elegeu Montenegro e que incuba e alimenta Ventura diariamente há vários anos, que está agora a empurrar para as luzes da ribalta um aprendiz de salazar que, enquanto foi primeiro-ministro, cortou salários, eliminou feriados, destruiu direitos laborais, privatizou serviços públicos estratégicos e desmantelou o Estado social construído após Abril, vangloriando-se mesmo de levar a austeridade para lá das exigências impostas pelos liquidatários do imperialismo (FMI, Comissão Europeia e BCE).

Passos não é a antítese de Ventura nem de Montenegro, mas antes o complemento de que o regime que os alimenta necessita neste momento.

É o Bonaparte providencial de pacotilha, menos bufão que Ventura mas igualmente limitado, um pouco mais envernizado e institucional que Montenegro, mas gémeo univitelino dos dois.

A farsa só se tornará tragédia se quem hoje está justamente indignado continuar a desperdiçar com os salvadores da pátria e os bobos de serviço do regime, a energia, a organização e a determinação necessárias ao desmantelamento do sistema que os produz, os recicla e entre eles alterna sempre que precisa de salvar a face.

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