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Entre o caos e a autoridade: o verdadeiro significado do 28 de Maio e o fim da República

Artigo de Tiago do Val, membro da Assembleia de Freguesia de São Vicente pela Iniciativa Liberal.

© IL

Há 100 anos, Portugal enveredava por uma ditadura militar que era vista por muitos como a solução para salvar o país e as suas gentes. Numa das proclamações à nação, naquele 28 de maio, o Marechal Gomes da Costa, dirigindo-se aos portugueses, afirmava que a situação do país era inadmissível e como tal defendia a necessidade de “instituir na administração do Estado a disciplina e a honradez” que há muito tinha perdido com a 1 República.

Assinalar os 100 anos do 28 de Maio de 1926 exige mais do que repetir lugares-comuns ou julgamentos fáceis. Exige, acima de tudo, honestidade intelectual. Porque a história não se analisa com slogans — analisa-se com contexto.

O golpe liderado por Gomes da Costa não pode ser reduzido a uma simples antecâmara do Estado Novo, como tantas vezes se quer fazer parecer. Essa leitura é muito confortável, mas profundamente redutora. Ignora como tal o essencial: o país que existia antes do 28 de Maio já estava em rutura. A 1 República e os seus partidos foram os principais responsáveis pelo rumo que o país tomou nas décadas seguintes.

O país estava caótico no período tardio da 1 República, os partidos digladiavam entre si e episódios de violência era uma constante.

Um desses episódios, foi a infame “Camioneta Fantasma”, na noite de 20 de outubro de 1921, e não foi um episódio isolado — foi o retrato cru de um regime em desagregação. Nessa noite foram assassinados, entre outros, António Granjo, então presidente do Ministério, bem como Machado Santos e José Carlos da Maia, dois dos nomes maiores da própria Proclamação da República. Quando um sistema político já não consegue proteger os seus próprios protagonistas, deixou de garantir o mínimo de ordem.

E esse não foi um caso único. Ao longo da década de 20, Portugal mergulhou num clima de instabilidade quase permanente. Entre 1910 e 1926 sucederam-se dezenas de governos, muitos com duração de meses, e outros de algumas semanas. Em 1926, o cenário era claro: partidos fragmentados, lideranças desacreditadas e uma descrença generalizada que era transversal a toda a sociedade, da direita à esquerda. O parlamento tornara-se portante sinónimo de bloqueio e impotência. Nas ruas, a violência política era uma constante. Como refere o historiador António José Telo, “havia dezenas de exércitos privados, porque cada grupo político tinha o seu”.

Não se tratava de uma democracia imperfeita. Tratava-se de um regime em perda acelerada de legitimidade, incapaz de responder aos problemas do país: instabilidade financeira, inflação, participação desastrosas da 1 grande guerra, dívida elevada, tensões sociais e um Estado frágil.

É neste contexto que o 28 de maio deve ser entendido. Não como um plano ideológico coerente, nem como um movimento homogéneo. Pelo contrário: reuniu sensibilidades muito distintas — da direita conservadora a setores da esquerda e correntes radicais — unidas por um diagnóstico comum: a República tinha falhado, e tinham um odio profundo ao Partido Republicano Português, o responsável pelo poder na 1 República.

E é também neste contexto que importa compreender uma ideia que hoje causa desconforto, mas que à época era amplamente discutida: a necessidade de uma solução de força. Falava-se abertamente de uma ditadura — não como um regime permanente, mas como uma solução transitória, capaz de restaurar a ordem, estabilizar as finanças, garantir segurança e pôr fim à paralisia política, abrindo depois caminho a um regresso à normalidade constitucional.

O próprio conceito de “ditadura” não carregava, para muitos, o peso negativo que hoje lhe atribuímos. No contexto europeu da altura, regimes autoritários eram uma realidade: a União Soviética na Rússia, o fascismo em Itália, a ditadura militar de Primo de Rivera em Espanha. A ideia era portanto um governo forte, capaz de decidir sem bloqueios parlamentares, era vista por muitos como uma resposta legítima a tempos de crise. Para muitos portugueses da época, a alternativa não era entre democracia e ditadura — era entre ordem e caos.

Nada disto significa ignorar o que viria depois. Significa apenas recusar leituras simplistas. O 28 de Maio não nasceu com um destino traçado. A história não é inevitável — é feita de circunstâncias, escolhas e consequências.

Por exemplo em Espanha, depois da ditadura militar de Primo de Rivera, o país voltou ao sistema democrático republicano.

O Marechal Gomes da Costa, muitas vezes reduzido a uma figura simbólica de um processo que o ultrapassou, deve também ser visto à luz do seu tempo. Não como um arquiteto de um regime futuro, mas como um homem inserido num momento de colapso político. Segundo testemunhos familiares, entrou no Palácio de Belém com poucos recursos e dele saiu praticamente na mesma condição. “Toda a gente sabe que morreu pobre”, recorda o seu bisneto, evocando as suas últimas palavras: “Amem-se uns aos outros e amem sobretudo o nosso querido Portugal, a quem eu servi e amei com a maior lealdade e dedicação.”

Talvez seja precisamente aqui que o debate se torna mais exigente. Porque é fácil julgar o passado com a tranquilidade e o conforto do presente. É fácil aplicar os valores de hoje a decisões tomadas num tempo de incerteza, insegurança, medo e desordem. O difícil — e o necessário — é compreender antes de julgar.

A história não pode ser um tribunal onde o presente condena o passado com base em critérios que este nunca conheceu. Quando o fazemos, não estamos a esclarecer — estamos a distorcer.

Como tal, devemos ser justos e rigorosos na análise da Primeira República e dos seus dirigentes, reconhecendo de forma honesta o falhanço na concretização do ideal republicano, liberal e democrático que proclamaram, bem como o papel que esse fracasso teve a moldar as décadas que se seguiram até ao 25 de Abril de 1974.

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