
Há algo de quase artístico em Barcelos, conseguimos vender a imagem de cidade criativa, com o artesanato e o galo colorido a saltar para o mundo, mas cá dentro vivemos, muitas vezes, de obras-primas inacabadas. Uns chamam-lhe “desenvolvimento”, eu prefiro: vitrine bonita com prateleiras vazias.
Barcelos continua a perder o comboio – e não apenas no sentido figurado, basta tentar apanhar um comboio decente para percebermos o que significa a expressão “ficar em terra”.
Quando falamos de desenvolvimento, não basta erguer rotundas caprichosas, nem inaugurar espaços com pompa e foguetes. Desenvolvimento é pensar em mobilidade, em sustentabilidade, em criar oportunidades para os jovens que, mal acabam os estudos, já têm a mala feita para Braga, Porto, Lisboa ou estrangeiro.
Quantos programas sérios existem para fixar talento cá? A receita tem sido sempre a mesma, palmadinha nas costas, um evento cultural aqui, um torneio desportivo ali, uma estreia de cinema… espera… cinema não, que isso em Barcelos ainda é só um sonho. E… siga. Só que isso não cria emprego qualificado, não atrai investimento inovador, não prepara o concelho para competir no século XXI neste mundo cada vez mais globalizado. O que Barcelos precisava era de pensar fora da caixa. Porque não criar um centro tecnológico, um verdadeiro laboratório de empreendedorismo e criatividade? Espaços de cowork, incubadoras de startups, áreas para investigação aplicada. Enfim, um “Silicon Valley à moda do galo”. Talvez assim conseguíssemos segurar os jovens empreendedores em vez de os ver partir em busca de ecossistemas mais dinâmicos.
Outro capítulo brilhante é o da regeneração urbana. Quantos edifícios devolutos, uns privados outros históricos, continuam ao abandono, cheios de potencial para cultura, turismo ou até habitação acessível? Dá-se um jeitinho aqui, um retoque acolá, corta-se a fita, fotografia para o jornal. Mas o resto fica ali, a desfazer-se em caliça, como se fizesse parte de um museu de “coisas que podiam ter sido”. Barcelos gosta de dizer que é cidade criativa, mas a criatividade parece aplicar-se apenas à forma de adiar as decisões difíceis.
E, claro, não podíamos deixar de falar da tão aguardada nova ponte sobre o Cávado. Um projeto desenhado por um arquiteto famoso, apresentado como símbolo do futuro e da modernidade de Barcelos. Até soa bem, não soa? Só há um detalhe curioso, o anúncio surge, invariavelmente, nas vésperas das eleições. Parece sempre aquele número de magia feito para distrair o público, mostra-se a maquete renderizada, fala-se da “ligação estratégica” e depois… silêncio durante anos. A ponte nunca sai do papel, mas serve para atravessar uma outra margem, a do voto fácil.
Depois há o ambiente. Ecologia tornou-se palavra da moda, aparece em discursos, em brochuras e até em hashtags simpáticas. Mas experimentar colocar Barcelos na rota da mobilidade elétrica, ou de corredores verdes planeados a sério, já é pedir demais. Continuamos com os mesmos pontos negros ambientais, o mesmo tratamento minimalista do Rio Cávado e, já agora, do Rio Neiva, sempre esquecido mas vital para o equilíbrio ambiental do concelho. E claro, a mesma filosofia de “deixa andar”, um lema tão barcelense como o galo.
Barcelos merecia mais, planeamento com visão, decisões que pensassem o futuro a 10, 15 ou 20 anos e não apenas até às próximas eleições. Projetos que colocassem o concelho no mapa não só pelas tradições que sempre tivemos (e que são valiosas), mas pela capacidade de inovar e gerar mudanças .
Mas, enquanto isso não acontece, continuamos a viver neste permanente ensaio geral, onde tudo parece estar “em andamento”. O problema é que o espetáculo nunca começa. E nós, os barcelenses, continuamos como espectadores silenciosos, a aplaudir entre suspiros e esperanças adiadas, segurando a promessa de um futuro melhor que insiste em fugir aos nossos olhos, enquanto a cena principal permanece sempre vazia.


