OpiniãoAbril, as Mulheres e a Liberdade Inacabada

Abril, as Mulheres e a Liberdade Inacabada

Artigo de Paula Silva, natural de Dume e residente na União de Freguesias de Real, Dume e Semelhe, membro da Assembleia de Freguesias de Dume entre 2009 e 2013, e membro da Assembleia da União de Freguesias de Real, Dume e Semelhe entre 2013 e 2021.

© Paula Silva

A Revolução dos Cravos permanece como um dos momentos mais transformadores da história contemporânea portuguesa. Ao derrubar décadas de ditadura, Abril abriu caminho à democracia, à liberdade de expressão e à construção de uma sociedade mais justa. Para as mulheres, representou também o início de uma nova era — uma ruptura com um passado marcado por limitações legais, sociais e culturais profundas.

Antes de 1974, a vida das mulheres em Portugal era, fortemente, condicionada. O acesso à educação, ao trabalho e à participação cívica estava limitado por normas rígidas e por uma visão tradicional do seu papel na sociedade. Com a democracia, surgiram direitos fundamentais: igualdade perante a lei, acesso mais amplo ao ensino, entrada no mercado de trabalho em condições mais dignas e a possibilidade de participação política activa.

Ao longo das últimas décadas, estes avanços tornaram-se visíveis. As mulheres conquistaram espaço em áreas historicamente dominadas por homens, assumiram cargos de responsabilidade e contribuíram, decisivamente, para o desenvolvimento do país. Foram aprovadas leis importantes na promoção da igualdade de género e no combate à discriminação e à violência.

No entanto, a celebração de Abril não pode ignorar o que ainda falta cumprir.

A desigualdade salarial persiste, com mulheres a ganharem, em média, menos do que os homens. A presença feminina em cargos de topo continua aquém do desejável, e a conciliação entre vida profissional e familiar permanece desigual. A violência doméstica e outras formas de violência de género continuam a afectar milhares de mulheres todos os anos, revelando que a liberdade conquistada não é vivida de forma igual por todas.

Mais do que um legado, Abril é um compromisso contínuo. A liberdade não se esgota na conquista de direitos formais — exige condições reais para que esses direitos sejam exercidos plenamente. Exige políticas públicas eficazes, mudanças culturais profundas e uma responsabilidade colectiva na promoção da igualdade.

Mais de cinquenta anos depois, importa perguntar: que Abril queremos hoje? Um que celebre apenas na memória, ou um que continue a transformar a realidade?

A resposta não pode ser passiva nem adiada. Exige acção concreta, investimento sério na educação para a igualdade, combate firme a todas as formas de violência e discriminação, e uma valorização efectiva do papel das mulheres em todos os sectores da sociedade. Exige, sobretudo, uma mudança de mentalidades que vá além da lei e se enraíze no quotidiano.

Como mãe de uma menina e de um menino, a resposta torna-se ainda mais clara e urgente. Quero que cresçam num país onde as oportunidades não dependem do género, onde nenhum deles seja limitado por expectativas antigas ou desigualdades persistentes. Quero que a minha filha saiba que pode ser tudo o que quiser, sem ter de lutar mais por isso do que qualquer outro. E quero que o meu filho cresça numa sociedade que ensine-lhe respeito, igualdade e responsabilidade, onde ser homem não signifique privilégio, mas consciência.

Porque a verdadeira herança de Abril não é apenas a liberdade conquistada — é a igualdade que ainda temos de garantir.

Enquanto essa igualdade não for plena, Abril não será apenas memória. Será, todos os dias, um compromisso — e um caminho que não podemos deixar por cumprir.

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