
Ontem, no Hotel Vila Galé Collection, em Braga, cerca de uma centena e meia de pessoas reuniram-se para homenagear Bernardo Reis, provedor da Santa Casa da Misericórdia de Braga. A cerimónia integrou a 45.ª edição das Conversas da Casa da Lusofonia da Universidade de Coimbra e contou com o envolvimento da Associação dos Antigos Estudantes, da Reitoria da Universidade e da Direção-Geral da Associação Académica de Coimbra.
Foi uma homenagem particularmente significativa. Bernardo Reis licenciou-se em Ciências Geológicas na Universidade de Coimbra durante a década de 1950 e deixou uma marca profunda na vida académica. Foi dirigente da Associação Académica, integrou o Orfeon Académico, promoveu o desporto universitário e participou ativamente nas tradições coimbrãs. Décadas depois, Coimbra veio a Braga reconhecer um dos seus antigos estudantes mais distintos e uma personalidade que soube transportar para toda a vida os valores de solidariedade, participação cívica e serviço à comunidade.
Esta foi apenas mais uma entre as muitas e justas distinções que Bernardo Reis recebeu ao longo da sua vida. Em 2021, foi condecorado com a Comenda da Ordem do Mérito, atribuída pelo Presidente da República. Nessa ocasião, recebeu igualmente uma medalha de ouro oferecida pelos trabalhadores da Misericórdia de Braga, o título de cidadão honorário da instituição e uma pintura a óleo com o seu retrato.
Em novembro de 2024, recebeu a Medalha Pro Ecclesia et Pontifice, também conhecida como Cruz de Honra. Outorgada pelo Papa Francisco, é considerada a mais alta condecoração concedida pela Santa Sé a leigos civis. Foi-lhe entregue pelo Arcebispo Metropolita de Braga, D. José Cordeiro, em São Bento da Porta Aberta.
Poderíamos acrescentar muitas outras distinções, incluindo a Medalha de Ouro da Companhia de Diamantes de Angola e a condição de membro honorário da Academia Portuguesa da História. Mas nenhuma medalha, comenda ou cerimónia consegue, por si só, traduzir completamente o valor de uma vida dedicada ao trabalho, à cultura, ao património e, sobretudo, aos outros.
Bernardo Reis nasceu em 14 de abril de 1934, em Pico de Regalados, no concelho de Vila Verde. Depois de uma carreira internacional de enorme sucesso como geólogo e especialista em pedras preciosas, regressou às suas origens e colocou a experiência de gestão acumulada ao serviço da comunidade. Assumiu as funções de provedor da Santa Casa da Misericórdia de Braga em 7 de novembro de 2003 e foi sucessivamente reeleito.
Durante mais de duas décadas, conduziu uma das maiores e mais importantes Misericórdias portuguesas com uma combinação pouco comum de visão estratégica, prudência financeira, sensibilidade social e respeito pelo património. Quando o antigo Hospital de São Marcos regressou à posse da Misericórdia, em 2011, a instituição recebeu um complexo de grandes dimensões, degradado e suscetível de se transformar num pesado encargo financeiro.
Onde muitos teriam visto apenas um problema, Bernardo Reis viu uma oportunidade para Braga. O complexo foi progressivamente recuperado e recebeu novas funções. Parte dos edifícios deu origem ao Hotel Vila Galé Collection Braga, o antigo bloco operatório passou a acolher o Hospital Lusíadas e foram projetadas outras respostas, designadamente na área dos cuidados continuados e das residências assistidas.
Também o Palácio do Raio, uma das obras mais emblemáticas do barroco bracarense, foi cuidadosamente recuperado. Desde 2015, acolhe o Centro Interpretativo das Memórias da Misericórdia de Braga, hoje um espaço de referência cultural, turística e académica. A recuperação das igrejas da Misericórdia, a valorização do património e a aproximação às universidades demonstram que a solidariedade e a cultura não são realidades separadas.
Sob a sua liderança, a Misericórdia consolidou igualmente uma vasta rede de respostas sociais, abrangendo estruturas residenciais para idosos, creches, centro de dia e apoio domiciliário.
Aos 92 anos, Bernardo Reis continua a exercer o cargo de provedor e é aquele que durante mais tempo esteve à frente da Santa Casa da Misericórdia de Braga. Mas o tempo, neste caso, não se mede apenas em anos ou mandatos. Mede-se nas pessoas ajudadas, nos edifícios recuperados, nas respostas sociais criadas, no emprego gerado e no património devolvido à cidade.
Bernardo Reis merece todas as homenagens em vida. Merece-as pelo seu humanismo, pelo seu altruísmo, pela preocupação permanente com o bem do próximo e pela extraordinária obra social, cultural e económica que deixa a Braga. Homenageá-lo é mais do que reconhecer um homem. É afirmar que uma vida colocada ao serviço dos outros continua a ser uma das formas mais nobres de realização humana.


