OpiniãoQuem fica na fotografia? O papel esquecido dos fotógrafos dos municípios

Quem fica na fotografia? O papel esquecido dos fotógrafos dos municípios

Artigo de Cristina Fontes, professora e membro eleito pelo Movimento Amar e Servir Braga.

© Cristina Fontes

A fotografia institucional ocupa um lugar muito mais importante na vida de um município do que geralmente se reconhece.

À primeira vista, pode parecer uma função meramente técnica, associada ao registo de eventos, inaugurações ou cerimónias oficiais. No entanto, um fotógrafo municipal desempenha, ou deveria desempenhar, uma missão que ultrapassa largamente a simples produção de imagens para divulgação imediata. É um construtor de memória coletiva, um observador privilegiado das transformações do território e um dos responsáveis por deixar às gerações futuras um testemunho visual rigoroso da vida de uma comunidade.

Infelizmente, em muitos municípios portugueses, a fotografia institucional tem-se afastado desta missão mais nobre para se aproximar de uma lógica de comunicação política de curto prazo. A crescente importância das redes sociais e a necessidade permanente de alimentar canais de comunicação digitais conduziram a uma mudança de prioridades. Em vez de documentar o concelho na sua diversidade e complexidade, muitos fotógrafos municipais acabam por dedicar grande parte do seu tempo a seguir a agenda dos eleitos, produzindo imagens centradas na presença do presidente da câmara, dos vereadores ou de outras figuras institucionais. O município deixa de ser o protagonista da narrativa visual e passa a servir de cenário para a promoção da ação política.

Esta realidade merece reflexão porque a função pública não existe para construir a notoriedade de quem exerce cargos temporários. Os titulares dos órgãos autárquicos mudam. As equipas políticas sucedem-se. O município, porém, permanece. A fotografia produzida hoje será, dentro de décadas, uma fonte histórica. As imagens que ficarão nos arquivos municipais poderão ajudar investigadores, jornalistas, estudantes ou simples cidadãos a compreender como vivia uma determinada comunidade, quais eram as suas prioridades, como evoluiu o seu património e de que forma se transformaram os seus espaços públicos. Quando a fotografia institucional se limita a mostrar sucessões de discursos, assinaturas de protocolos ou visitas oficiais, perde-se uma oportunidade valiosa de documentar a realidade social do território.

Um fotógrafo municipal verdadeiramente comprometido com o interesse público deveria procurar retratar o município em toda a sua riqueza humana. As escolas, as associações culturais e desportivas, os agricultores, os empresários, os artistas, os idosos, os jovens, os novos residentes vindos de outros países, as festas populares, os espaços naturais e os projetos comunitários constituem igualmente a vida do concelho. Em muitos casos, são precisamente estas dimensões que revelam a identidade profunda de uma comunidade. Contudo, nem sempre recebem a mesma atenção porque não oferecem a visibilidade política imediata que alguns responsáveis procuram.

Existe ainda uma questão particularmente relevante: a diferença entre comunicação institucional e propaganda política. A comunicação institucional é legítima e necessária. Os cidadãos têm o direito de conhecer as atividades do município, os investimentos realizados e os serviços disponíveis. O problema surge quando os recursos públicos começam a ser utilizados para construir uma imagem pessoal dos eleitos em vez de informar a população. Nessa circunstância, o fotógrafo deixa de atuar como profissional ao serviço da instituição para se tornar, ainda que involuntariamente, um instrumento de valorização política. A fronteira pode parecer subtil, mas é fundamental para a saúde democrática das autarquias.

Outro aspeto frequentemente negligenciado é a preservação dos arquivos fotográficos. Muitos municípios acumulam dezenas de milhares de imagens sem uma estratégia consistente de organização, catalogação e conservação. Produz-se uma enorme quantidade de fotografias, mas perde-se uma parte significativa do seu valor documental porque não existe uma política de arquivo adequada. Um município que não cuida da sua memória visual está, em certa medida, a empobrecer o seu património histórico.

A excelência na fotografia municipal não se mede pelo número de publicações nas redes sociais nem pela frequência com que os responsáveis políticos aparecem nas imagens. Mede-se pela capacidade de construir, ao longo dos anos, um retrato honesto, diversificado e duradouro da comunidade. Um bom fotógrafo municipal não trabalha apenas para o presente. Trabalha também para o futuro. É alguém que compreende que a sua função não consiste apenas em mostrar quem esteve presente num determinado evento, mas em ajudar a contar a história de um território e das pessoas que lhe dão vida.

O fotógrafo oficial de um município deve ser visto como um agente de cultura, de património e de memória coletiva. Quando a sua atividade se reduz à cobertura da agenda política, perde-se uma parte essencial do seu contributo para a comunidade. Quando, pelo contrário, consegue documentar o município na sua totalidade e complexidade, presta um serviço público de enorme valor, muitas vezes só plenamente reconhecido pelas gerações que virão depois de nós.

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