
Somos um país que trata a liberdade como se fosse uma peça de museu. Entra‑se em silêncio, tira‑se uma fotografia, lê‑se uma legenda inspiradora e sai‑se convencido de que a História está segura atrás de um vidro grosso.
O 25 de Abril acontece todos os anos. Mas nem sempre acontece em todos nós.
Há quem ache que a democracia se conserva sozinha, como uma relíquia bem embalada — algo que já foi conquistado, arrumado no arquivo certo e só se retira em dias solenes. Uma espécie de património classificado: ninguém mexe, ninguém questiona, ninguém estraga. Só que a democracia não é um postal antigo. É um organismo vivo. E organismos vivos, quando não se usam, atrofi am.
Abril foi movimento. O que lhe fizemos foi estacionamento.
Falou‑se de liberdade e respondeu‑se com hábito. Falou‑se de participação e ofereceu‑se cansaço. A revolução abriu caminhos; nós tratámos de os transformar em rotinas, desvios e, quando possível, becos sem saída. Hoje, muitos defendem a democracia com a mesma energia com que defendem um comando de televisão: só quando algo deixa de funcionar.
No papel, somos um país livre. Na prática, vamos adiando essa liberdade para quando houver tempo, melhores condições ou menos contrariedades. A cidadania ficou refém do “logo se vê”, e o compromisso coletivo foi substituído por um confortável individualismo opinativo: todos têm opinião, poucos têm disponibilidade.
Abril ensinou que discordar é saudável. Nós transformámos a discordância num desporto de contacto. Em vez de debate, choque. Em vez de divergência, caricatura. A democracia deixou de ser um espaço comum e passou a ser um ringue — com claques, árbitros improvisados e regras mudadas a meio do jogo.
E talvez seja aqui que nos afastámos mais de Abril: quando começámos a confundir liberdade com impunidade, expressão com agressão, diferença com ameaça. A liberdade não foi conquistada para sermos todos iguais, mas para podermos ser diferentes sem medo. Esse detalhe perdeu‑se algures entre o barulho e a pressa.
O problema nunca foi Abril. O problema foi termos decidido que bastava lembrar, em vez de praticar.
Uma democracia celebra‑se menos com cerimónias e mais com coerência. Vive menos de palavras grandes e mais de gestos pequenos repetidos todos os dias. Não se protege com nostalgia, mas com vigilância. Não sobrevive de memória, exige responsabilidade.
Talvez esteja na hora de tirar Abril da vitrina, de lhe devolver o pó, o risco e a exigência, de aceitar que a liberdade não é confortável, nem consensual, nem automática.
Abril não prometeu facilidade. Prometeu possibilidade. E essa possibilidade só continua a existir se houver quem, todos os dias, esteja disposto a escolhê‑la, mesmo quando dá trabalho, mesmo quando incomoda, mesmo quando não rende aplauso.
Porque a revolução não foi feita para ser venerada. Foi feita para ser continuada.


